Comecei a me despedir dos bares, da vida noturna. O meu diagnóstico, feito incisivamente acusava o álcool como responsável pela séria doença que me consumia. De uns tempos para cá me consumindo de maneira mais acelerada. Eu, noctívaga convicta, adorava percorrer bares, todos os tipos, desde que bares, onde a simplicidade estampava nos olhares das pessoas.
Sempre me imiscuía no meio de todos, ao som de um violão choroso, e fazia novos companheiros de copo, parceiros de lutas naqueles anos sombrios da ditadura. Ali encontrava identificação das minhas dores e percalços, de alegrias vividas, de sentimentos estranhos. Deixava aflorar meu lado boêmio e vivia instantes como uma vida.
Chega uma hora que a vida nos checa. Hoje olho no espelho e sinto pesar meus anos vividos ,vejo as marcas dos dias trocados pelas noites. Com satisfação reconheço que vivi, ganhei experiências nas prosas dos bares. Conheci gente e mais gente, supercial e profundamente. Amei cada gesto delas. Procurava o lado de bom de cada um, o que me enriquecia. No mais recôndito nos assemelhamos, nas virtudes e imperfeições.
Os artistas da vida, os amantes de noite, os poetas das doses de cachaça; a meiguice de uma criança no mais forte dos homens. Sobretudo o medo de sofrer, a covardia da morte no dia a dia e, o que é mais importante e fantástico, o ser humano.Ver descer a máscara e deixar transparecer os sentimentos, mesmo os vazios não preenchidos, os amores e paixões nunca curtidos e frustrações boiando num mar de palavras e gestos, e ainda o ser homem.
Homem na sua essência, o ser humano de qualquer gênero a ser conhecido. Não, como diria uma amiga querida, a intelectualidade decadente, os pseudo-intelectuais e pseudo-artistas, mas o outro lado camuflado pela indiferença, pelo core-corre cotidiano. Talvez como para auto-defender-se das dores.
O bar, não como forma de fuga, é mais vida na vida, uma força pulsante. É o sangue noturno. O amar as noites e adentrar-se nelas com uma resolução consciente de se dar, receber, sentir a paz, o silêncio ou o barulho sem mistificações. É o batucar das mesas, a sensação inexplicável das músicas ao violão que entranham nosso interior.
O sorriso brotar como consequência de ser o boêmio um poeta, a noite uma companheira inseparável e acolhedora, sempre. Acho tudo isso questão de fidelidade às coisas que se ama. De repente, vejo-me saindo do bar, aquele de nossos reencontros, depois da labuta nos jornais e revistas, com um sol tímido tentando sobressair entre as nuvens poluídas e os prédios altos e decorados da velha cidade.
Como em tudo na vida tem de se optar, ser fiel , abandonar tudo e correr riscos vários… Bora viver! O meu assovio hilariante sobrepuja meu cansaço e meu sono.
Vanilda Souza Marques
Jornalista, ambientalista e integrante do Coletivo Marias em (Des)Construção





















