Ode a meu pai (in memorian)

Acabou? Ainda não!
Vanilda Souza

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Meu pai, na maioria das vezes, mais que bom. Na infância, foi presente,sempre, com seu calor paterno, calor humano. Levava a mim e a meus irmãos para cama com uma canção, seguida de um leite quente com açúcar, para chegar o sono, segundo ele. Acordava-nos com gemada lá pelas 6,00 da manhã e às 7, café quentinho e pão com manteiga para irmos à escola. Quando não leite de vaca de verdade. E, pacientemente, me ensinou a recolher o leite das tetas generosas das vacas de nosso quintal.

Colocava-me no colo, contava histórias(verdadeiras) de sua infância e adolescência. Vivia um épico com as tropas de burros, madrugadas adentro, em meio a geadas, com pés descalços, enfrentando a lida da terra. Aos poucos, me trouxe o doce sabor de ser de Minas, com seus encantos, comidas saborosas e amorosas.

Meu pai, que, apesar da falta de oportunidade para estudar(seu grande sonho), me deu o que nunca teve-o estudo, além de um jeito diferente de amar, sem cobrar. Olhar terno, com carinho nos ninava quando pequeninos. Abrandava as “bravezas” de minha mãe, se solidarizava com meu sentimento de compaixão ao abater um animal.

Meu pai, que me ensinou a amar a terra, a respeitá-la, a cultivá-la e a preservá-la. Que me mostrou, ainda menina, que a água é um bem finito(de vanguarda este homem, pois ainda não se falava em ecologia). Acada abraço lhe dado, eu o ensinava a externar o amar, para melhor acolher. Forte, escondia uma fragilidade masculina, por difícil de trazer à tona. Eram tempos duros, de carências, limitações financeiras, políticas, de repressão do afeto e do ser por inteiro.

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Nas tardes nos levava para saborear as queijadinhas e bombocados do seu Julinho, ou pastéis de carne, queijo e banana com canela do mercado. Apresentou-me aos jornais sem lê-los muito; a Vicente Celestino, Orlando Silva, Cascatinha Nhana, Nelson Gonçalves, Elizeth Cardoso, Pixinguinha; grandes chorinhos, pouco entendendo de música, mas sabendo apreciá-las com sua sensibilidade rústica.

Meu pai,, com quem sonhei viajar, voar, mas fiquei com os pés fincados nos recônditos do Sul de Minas. Contido, porém amoroso e zeloso. Ensinou-me, junto com mamãe, o valor da honestidade, do compartilhar com o próximo; o ir, o voltar, sem cobrar o ficar; que me independeu, sem sentir que o fazia.

Propiciou meu lado masculino, sem conflito com o feminino ao me incentivar a aprender dirigir caminhão, para fazer entregas de sua máquina de beneficiar arroz, a carregar sacos de batatas, arroz e feijão. Nunca cerceou meu dom para as letras; ao contrário, estimulou-o sempre, prestigiando meus textos.Calado, impaciente, ansioso, achando que o trabalho é a única razão de ser da vida, e que tirar férias era bobagem, pois só a lida diária enobrece e nos enche a alma. Meu pai, que permitiu a liberdade consentida por mamãe. Sou-lhe grata por tudo e o amo, amor indestrutível, tal o que o senhor me deu ao longo da vida e o fez, fortalecendo o meu ser.

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Certa feita, o levei à praia. Achou uma bobagem a ideia, mas ao chegar lá, jogou de lado sua bengala e se atirou feito um menino nas ondas do mar, e nadou, segundo disse, como na sua infância. Aos domingos gostava de me levar ao campo de futebol de nossa cidade e vibrávamos a cada jogada genial dos jogadores de seu time. Isso sem contar as tardes em que meu irmão e eu íamos pescar com ele no rio das Antas, hoje, um esgoto a céu aberto.

Vejo-o abrindo a porta de madrugada e me recebendo-a menina de 16 anos- levada pelo

juiz de menor, por parar a orquestra no baile tradicional da cidade, em protesto pela proibição da entrada do saudoso negro Aleixo, patrimônio humano, que socorria a todos com seus cuidados médicos, embora sem diploma. Papai me permitiu voltar ao clube e salientou ao juiz sermos todos iguais perante a Deus, independentemente da cor da pele e posição social. Obrigada por tudo o que nos ensinou. A saudade doeu com sua partida.

Vanilda Souza Marques

Jornalista, ambientalista e integrante do coletivo Marias em (Des)Construção

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