Nós, as poderosas

Acabou? Ainda não!
Vanilda Souza

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“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente
diferentes e totalmente livres.”
Rosa Luxemburgo

 

 

“Pés, para que os quero se tenho asas para voar?”
Frida Kahlo

 

 

“Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a
liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”
Simone de Beauvoir

 

 

 

Tais mulheres acima citadas ainda não faziam parte do mundinho estreito
daquela mineira, educada em uma família “terrivelmente” católica e
conservadora. Em 1974 chega à faculdade de Comunicação, com uma vontade
tremenda de escrever e mudar o mundo. Santa ingenuidade! Com fome de
livros e de conhecimento, continuou a entrar de cabeça nos livros. Saiu de
Hemingway, Maughan, Veríssimo, Pessoa- seu poeta amado- para mergulhar
no pensamento de Adorno, Keynes, Trotsky, Smith, Horkheimer, entre outros.
Com poemas de Vinicius de Morais, Augusto dos Anjos e, sobretudo
Fernando Pessoa, foi conquistando a turma de 92 alunos -depois dividida.
Acabou eleita líder de classe e do DA-Diretório Acadêmico. Chorava amiúde
de saudades dos pais, irmãos e da terrinha. Saiu do pensionato de freiras, que
detestava, salvo companhia da inteligente peruana Obaida, para morar com
algumas conterrâneas. Chega à faculdade de bota, lenço na cabeça, jeans e
camisas largas. No bar em frente ao ponto de ônibus tomava meio conhaque,
acendia o paeiro mineiro e ia para as aulas.
Era tímida enrustida, escondendo-se na pose de porra louca. Quando muito
triste, era levada para casa de Denise ou Cecília, grandes parceiras de
trabalhos de psicologia e sociologia, muito receptivas com a mineira carente.
Às vezes tomava ônibus após as aulas, fugia pra terrinha, curtir a família,
voltando na madrugada seguinte, sempre com seu querido tio Erlin. Até que um
belo dia, Laura, colega de classe, a flagra chorando no campo de vôlei.
Desejava voltar pra Minas, devido imbróglio com as conterrâneas. Na hora, a
parceira de classe ofereceu-lhe o apartamento que dividia com os irmãos. Lá
se foram pegar as malas da mudança.
Nós, as poderosas- parte 2
Alice, a Japinha, como seria chamada a posteriori, também deu aquela força
e, desde 5 de março de 1974, tornaram-se inseparáveis. Estudavam, viajavam
juntas, dividiam sabores e dissabores dos amores furtivos; organizavam cursos
de inglês, festas no apartamento, inicialmente, na Abílio Soares, no Paraíso,
depois na avenida São Luiz, centro de Sampa, próximo ao jornal em que Laura

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e ela trabalhavam. Alice já ingressara em famosa agência publicitária.
Frequentavam reuniões nos sindicatos, participavam de passeatas pelo fim da
ditadura militar, iam a reuniões dos metalúrgicos em São Bernardo. O dia que
foi presa com Lula na igreja, onde o mais tarde bispo, dom Cláudio Humes,
atuava, bem como na prisão fazendo piquete na porta do Diário do Grande
ABC, apavorou-se. Chorava, pra variar, pois chorar até hoje é seu forte. Como
a carteira de identidade fora levada pelos policiais, temia a reação do pai, que
poderia espumar dizendo: “minha filha estuda pra ser jornalista e vira
comunistinha? Não volta mais pra São Paulo!” diria peremptoriamente.
Mas, felizmente, nada disso ocorreu. A carteira lhe foi devolvida e das
amigas também. Em 75, Vladimir Herzog, jornalista morreu assassinado no
DOI-CODI-Departamento de Operações de Informação -Centro de Operações
de Defesa Interna, subordinado ao Exército. Disseram ser suicídio. Muitas
torturas em seu interior foram realizadas e todos temiam ir parar naqueles
porões assombrosos.
Na missa de sétimo dia de Herzog, nosso apartamento ficou vigiado por
canhão e fuzis. O irmão de Laura atuava na edição de política do mais
tradicional jornal do Brasil. Lá desceu do 11º a mineira espevitada para missa
na catedral da Sé. Laura, Alice eu estávamos em todos os comícios pelas
diretas já, nas peças de teatro e filmes censurados, junto com Plínio Marcos
distribuindo seus poemas e poesias nas universidades, fazendo frilas e artes
gráficas para jornais clandestinos e participando das greves por melhoria
salarial.
À noite curtíamos o Bar do Chupeta, o Sujinho próximo ao viaduto Maria
Paula, Riviera e tantos lugares marcados pela boemia paulistana. Bons
tempos! Nada temíamos. Ainda teve a passeata da Avenida São João.
Milhares de trabalhadores e estudantes saíram pedindo a liberdade de
expressão, de imprensa. A cavalaria arremessava bombas de gás
lacrimogêneo e os cassetetes corriam soltos nos participantes. De repente, nos
agarraram pela calça jeans e nos enfiaram em um bar até a muvuca acalmar-
se.
Éramos movidas pelo ideal de liberdade e igualdade para homens e
mulheres; contra a opressão, a ditadura, a discriminação racial e sexual;
inspiradas, agora sim nas Marias e Clarices, Fridas e Simones, Emma,
Camillas, Carolinas, Rosas, e tantas mulheres que ousaram e se mostraram
corajosas, porque desejosas de um lugar ao sol em seu entorno.
Agora, em 2024, comemoramos nossos 50 anos de amizade, desfilando no
carnaval, no bloco Vaca Profana, em homenagem à memorável Gal Costa, cuja
letra é uma ode à liberdade feminina. Nosso viva a todas as mulheres
empenhadas por um mundo melhor e mais equânime.

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Vanilda Souza Marques Jornalista, ambientalista e voluntária no
Movimento pela Paz e não Violência, integrante do Coletivo Marias em
(Des)Construção.

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