Sou filha da ditadura. Nasci no meio do período ditatorial, ouvindo à boca pequena “a minha gente (…) falando de lado e olhando pro chão” (C.B.), em sonoros gritos mudos, os incontroláveis desejos de liberdade, que pulsavam há uma década.
Dia a dia, “a enorme euforia”, tornava-se cada vez mais difícil de ser controlada. E como proibir “Todo [aquele] amor reprimido / [aquele] grito contido” (C.B) que já não cabia mais em “sambas escuros”?
Como entender que “Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão”, tivesse também, inventado o pecado, mas “[Esquecido] de inventar / O perdão”? (C.B.)
Contudo, se “quem sabe faz a hora [e] não espera acontecer” (G.V.), inventemos, pois, o perdão e soltemos todo o amor reprimido nos gritos contidos de horror e medo!
Caminho lógico, se não fosse – quase – impossível trilhá-lo naquele momento, sem ter que esperar acontecer.
Essas letras e tantas outras dos cantadores da resistência de um Brasil-aprisionado, compuseram o cenário musical da minha infância.
Tenho registrado no meu coração-alma uma trilha sonora que sempre tocava em casa, com canções suaves e amorosas, que embalava meu sono, minhas brincadeiras, meu cotidiano. Era um som de fundo que me dava aulas de cidadania, amor, justiça, estética, história, liberdade… DEMOCRACIA!!!
Naquele tempo, eu ainda não tinha condições de entender o que queria dizer a suave canção de Chico que bradava calmamente: “Ca-la a bo-ca, Bárbara”. Nem tampouco compreender o que era o “Carcará”, da suave e doce voz de Nara ou da imperativa e resistente voz de Bethânia. Assim como era impossível compreender o que era aquela situação distópica na qual o Brasil estava imerso.
Sonhamos “com a volta do irmão do Henfil / de tanta gente que partiu”, através de O bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. E muitos deles voltaram! Outros, não tiveram a mesma sorte…
Anos se passaram e, em 1985, já com 13 anos, tive a honra e a oportunidade de ver, o mesmo Brasil distópico, clamando por “Diretas, Já!” ao som de “Vai Passar”, do incansável Chico.
“A nossa pátria mãe tão / Distraída [que dormia] / Sem perceber que era / Subtraída / Em tenebrosas / Transações” (C.B.) finalmente acordava de um sono de 21 anos!
Brasil afora, festejava-se o fim do regime militar, em palanques multipartidários, reunindo figuras como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Lula, FHC, Montoro, Osmar Prado… todos juntos pelas Diretas Já e a consolidação da Democracia!
Para pessoas como meu pai e minha mãe, que foram impedidas de eleger nossos presidentes de 1964 a 1988, poder voltar a votar em 1989, certamente, foi uma emoção inexplicável.
Mas para mim, era uma novidade que jamais houvera povoado meu imaginário infantil, tampouco adolescente. E votei Lula, no 2° turno, contra o horror disruptivo que anunciava ser o collorido candidato. Como de fato foi.
Ser uma cara pintada, já como uma jovem universitária, teve um gostinho de ser “gente grande”, vivendo e fazendo história. Inesquecível!
Durante a apuração do 2° turno da eleição de 2018, dormi. Dormi um sono pesado e cansado como se precisasse me recuperar de um desgaste de energia que eu nem tinha começado a gastar.
A notícia vinda de meu pai, saindo da sala de tv, cabisbaixo, dizia quase que num sussurro: – “Não dá mais. Acabou… Perdemos…” me fez o corpo todo gelar, paralisado.
Hoje, 30 de outubro de 2022, através de uma chapa composta por uma frente ampla democrática, novamente multipartidária, elegemos a volta da Democracia!
A emoção é outra. Claro que será inesquecível! Porém, é uma emoção de “ano passado (2022) eu morri, mas esse ano (2023) eu não morro” (B.)
De mão empunhada em um grito de protesto como os integrantes do MNU (mov. negro unificado), eu brado alto e em bom som “Meu Deus, vem olhar / Vem ver de perto uma / Cidade a cantar / A evolução da liberdade / Até o dia clarear” (C.B.)
Que venha 2023! O ano em que começaremos a re-arrumar a casa brasilis.
Não será fácil.
Não será rápido.
E, certamente, “vamos precisar de todo mundo / [porque] Um mais um é sempre mais que dois (…) /[e] Para construir a vida nova / Vamos precisar de muito amor”.
Estejamos em união, em paz e com muito amor, porque só ele nos ajudará a construir o tão sonhado país do futuro, agora, no presente!
VIVA a DEMOCRACIA!!!
PS: e gracias mil, aos queridos irmãos do nordeste!!!
30/10/2022
Por Virgínia Stela Lambert





















