A democracia precisa ser preservada

Acabou? Ainda não!
Vanilda Souza

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Era o ano de 1975. Tempos trevosos, de silêncio, morte e tortura. Morava no apartamento da Abílio Soares, onde fora gentilmente acolhida pela grande amiga Laura e irmãos, que pareciam entender os sonhos da mineira ingênua que chegara na maior metrópole da América Latina, de princípio, assustadora. Póximo àquela rua do bairro Paraíso ficava o mais temido órgão de estado da ditadura vigente: o DOI CODI- Departamento de Operações de Informação-Centro de Operação de Defesa interna. Ai de quem fosse levado para lá, pois poderia não sair vivo.

Apesar da repressão, os jovens se mostravam destemidos e aguerridos. Mas eis que naquela tarde de 25 de outubro, apreensão e agitação tomaram conta de São Paulo. Subiam tanques, vindos da rua Tutóia. O jornalista Vladimir Herzog, chefe do Departamento de Jornalismo da TV Cultura, se apresentara ao Exército, para prestar depoimento. Foi torturado e morto por enforcamento, e o aparato policial disse ter sido suicídio.

Tempos sombrios, onde figuras como Sérgio Paranhos Fleury, coronel Carlos Brilhante Ustra-torturador ídolo do atual mandatário do Brasil- assustavam a todos como fantasmas da escuridão.Nos porões da ditadura, mulheres grávidas eram presas, jovens eram seviciados, moças estupradas, ratros vivos

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colocados em suas vaginas e toda sorte de horror que marcaram 21 anos de repressão e tortura.

Sete dias após a morte de Vlado-como era conhecido-realizou-se a missa de 7º. Dia na Cartedral da Sé. Contra todas as admoestações lá foi a mineira integrar não só a missa, mas o protesto contra o regime opressor. Ao lado de Walmor Chagas, Fernanda Montenegro, chorava por viverem em um país tão maravilhoso e com tantas mazelas. D. Paulo Evaristo Arns fez seu pronunciamento emocionante.

20 anos depois, lá estava a mineira, ainda esperançosa, na praça da Sé, juntamente com 100 mil pessoas no movimento que tomou conta de todo o Brasil, pedindo Diretas Já. Agora, dia 25 de outubro, foi instituído como Dia da Democracia, sinal de que o sonho de Vlado e de milhares de jovens e trabalhadores brasileiros valeu a pena.

Porém como diz São Mateus, 26.41: “orai e vigiai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.” Vivemos um momento de incertezas e violência, de desprezo a nós brasileiros, de falta de diálogo e empatia. Assim sendo, necessário se faz resguardarmos e preservarmos a democracia, que parece fragilizada diante de ataques diuturnos. Nossa consciência pede para ser ouvida, a fim de não termos nunca mais de vivenciar os anos de chumbo que perduraram em nossa nação. Paz pela paz.

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Vanilda Souza Marques

Jornalista e ambientalista. Integrante do Movimento pela Paz e não Violência e Comitê Marias em (Des)Construção-Cambuí-MG

Resposta de 0

  1. ótimo texto que faz refletir muito o momento em que estamos. A ditadura neste país nunca foi julgada como merecia, soldados e militares assassinos ainda andam livres por aí. Temos que pedir punição para eles; eles não podem morrer sem a punição devida.

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