9,00 da manhã. Abro a janela de meu quarto para regar minha floreira, ou jardineira, e tomar ar para repor as energias. Eis que flagro um casal de rolinhas a namorar. Elas se beijavam. À medida em que encontravam os bicos, abriam as asas. Presumi ser expressão de alegria e intenso regozijo por se amarem. Um sanhaço azul intrometido tenta estragar o momento de enlevo, porém o casal o ignorou.
Observando essa cena, pus-me a pensar nos exemplos nos dados pela natureza, sobretudo de harmonia, respeito ao espaço do outro e, por que não dizer, de solidariedade. Isso porque o prato de mamão sobre o beiral da janela, sanhaços azuis e verdes, bem-te-vis e outro passarinho de bico pequeno vermelho-não sei o nome, era dividido por todos.
Vivemos, humanos, num egoísmo, egocentrismo, num mundo de toma lá dá cá com muita violência e ganância. Além da intolerância que corre solta pelo mundo. Entre nós parece acirrar-se. Poderíamos aprender um cadinho com os bichos, que só atacam com fome.
Gostaria de fazer um texto singelo, sem descambar para apologias ou críticas, mas fica difícil não expressar indignação pela nossa normose e individualismo exacerbados, a busca por interesse pessoal em detrimento do bem coletivo.
Para todos os continentes em que olhamos, pessoas vivem atormentadas, estressadas, pelo ter em detrimento do ser, e consomem desbragadamente. Impera o fodam-se os outros, o meio ambiente ou tudo em nosso entorno.
Somos predadores vorazes e a sensibilidade aguçada sente e denuncia, prenhe de uma tênue esperança de que acordemos para uma mudança radical. Ou estaremos fadados a auto-destruição.
Veio-me à mente uma frase antológica e profunda de Kalil Gilbran Kalil: “Árvores são poemas que a Terra escreve para o Céu. Nós as destruímos e as transformamos em papel para registrar todo o nosso vazio. “
Vanilda Souza Marques Porfírio
Jornalista e ambientalista





















