Quem morava por ali era vizinho de tudo de bom que acontecia, no movimentado centro vital e romântico da cidade. E como acontecia! Ali resplandecia o Cine Rio Branco, o melhor do Brasil, por anos a fio. Mais acima, a chique bombonière Kopenhagen da Kátia Frota, com obras-primas em delicatessen que, de há muito, Varginha já se esqueceu do que seja. Havia “seu” Manoel, pipoqueiro, com as famosas pipocas de canjica. Carrocinhas de algodão-doce, carrinhos de picolé. O homem que vendia bolas infladas com hidrogênio, e que, para espanto da meninada, se soltasse, saíam voando para o céu como papagaios.
Havia chope geladíssimo e cremoso na Churrascaria Varginha e no restaurante do Armando Gambi. Cerveja trincando no Bar do Clube, Bar do Batista e Bar Itália. Pastéis sequinhos no Lanches House. Farta oferta de jornais, revistas, bilhetes de loteria no Victorio Di Blasi.
Na Travessa Monsenhor Leônidas, que ligava o Rio Branco ao Cine Theatro Capitólio, faziam-se os melhores cigarretes, coxinhas, empadinhas, petiscos variados de frango, que eu já provei na vida. Chamava-se, sugestivamente, Petisqueira Cinelândia e pertencia ao português “seu” Cabral; antes dele, ao “seu” Watson. Ao lado, a Livraria do Estudante, do José Ricardo, onde havia com frequência lançamentos de livros, noites de autógrafos — ou seja, o charme e o burburinho do conhecimento e da arte, em um abnegado estabelecimento que iria abastecer Varginha de cultura por 52 anos.
Também na travessa, a joalheria do Valdir Barbieri, mestre em design de brincos, colares e anéis com qualidade e brilho, que fariam boa figura no ranking da ourivesaria internacional. Lá era facilmente encontrável o violonista Weber Machado, um prodígio em seu 7 cordas. Weber, gênio com certeza, passava o dia de olho no microscópio, como bioquímico que era — nutria paixão por matemática pura, e nas horas vagas, produzia maravilhas ao violão e aprendia com o Valdir o ofício de joalheiro.
Picolés de abacaxi, cereja, coco e abacate eram com o Milém Salles e a esposa, dona Vivinha, pessoas gentilíssimas; nunca mais se viu delícia igual nem parecida.
Na Foto Elite, todos recebiam atendimento vip por parte do “seu” Homero, vizinho da Charutaria Londres, do Nelson Lebre. Na esquina com a Ribeiro de Resende, imperava a Papelaria Lulu, do Lulu Campos — mais tarde do irmão, João — com brinquedos e bonecas da Trol, da Estrela, livros e material escolar. Na espaçosa vitrine, um dos pontos de maior visibilidade de Varginha, eram exibidos medalhas e troféus de todos os certames, competições e concursos que havia na cidade: concurso de Trovas, torneio de Xadrez, Concurso Miss Varginha, Rainha dos Estudantes, Miss Escurinha, Escola de Samba campeã, campeonatos de futebol, Olimpíadas Estudantis, Jogos de Verão…
Cara a cara com a papelaria, ainda na Ribeiro de Resende, a inigualável vitamina de abacate e a salada de frutas do Marabá. Em priscas eras, inicio dos anos 50, por ali existiu o animadíssimo Tiro ao Alvo, desses que vemos em quermesses de filme americano, com ursinhos e bonecas para o namorado bom de mira, que por ali circulava de braços dados com a encantadora mocinha que escolhera como dona de seu coração. No carnaval, nesse local se improvisava uma tendinha com máscaras, apitos, bandeiras, serpentinas, confetes e o prestigiado lança-perfumes da Rhodia.
Ao lado, a churrascaria Gambi, onde o Zé Negrinho, com voz diminuta e repertório requintado, discretamente sentava-se ao fundo, com um banquinho, um microfone e um violão. Zé Negrinho (louro, cara de italiano) tinha o dom de fazer o quase impossível: música ao vivo em restaurante, sem incomodar ninguém; cantava bem e baixinho. Varginha inteira e boa parte do sul de Minas, naquele tempo, sabia o que era bom e, por conseguinte, a churrascaria vivia lotada.
No lado oposto, ficava a Bob’s Discos, do Mauro, ágil ao providenciar para sua discoteca — naquele tempo, de vinil — os últimos sucessos da hit parade. Ao lado do Gambi, sorvetes e bebidas mo Bar do Clube, mesas na calçada, sempre cheio. E o monumental Clube de Varginha, sobre o qual muito já falamos por aqui.
Subindo à direita do cine Rio Branco, na esquina com a avenida São José tinha a padaria do Hans e da Moema; pães e doces de primeira. Virando para a Presidente Antônio Carlos, a Padaria Brasília, do Aloísio Almeida, o melhor pão que já existiu nas redondezas. Havia um macete quase secreto, mas de grande valia, conhecido pelos amigos da noite, seresteiros, frequentadores eventuais ou assíduos da rua Tiradentes. De madrugada, depois das 2h00, quem se fazia amigo dos padeiros da Brasília tinha como entrar pelo portão dos fundos e colher os frutos da primeira fornada. Pão quentinho, um presente do céu, ainda mais com aquela fome que só quem já viveu de madrugada, sabe o que é.
Em frente ao cinema, ficava o Restaurante Cê Que Sabe, do Dié. Bem mais abaixo, a Bicicletaria Rex, do Toniquinho Mitidieri. Ao lado, a Boutique Jóia, da Nícia e da Nívea, minhas primas. Na esquina, a casa dos padres, como era chamada, e o Cine Paroquial.
A loja de roupas para crianças, A Infantil, do meu primo Antônio Pinto, promovia até desfiles de moda com top models mirins, no Capitólio, e era no escritório, ao lado da bela casa da dona Maria Margarida — de pé até hoje — que o escritor e advogado Dr. Wladimir Pinto atendia seus clientes.
A Turma do Teatrão recebia apoio cultural e usava um amplo salão na Associação Médica. O IBEU, comandado pela teacher Hélia Resende, minha mãe, e a Cultura Teuto, onde a professora e amiga querida Teresinha Morais lecionava alemão para crianças, também funcionavam lá. (Continua)
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Secretária da Argumento Jornalismo Ltda (BlogdoMadeira e Jornal Folha de Varginha). Estudante de Publicidade & Propaganda.



























