Janilton Gabriel de Souza
Psicólogo e Psicanalista. Mestre em Psicologia pela UFSJ. Professor Universitário e Supervisor Clínico no Grupo Unis. Pesquisador no IIP e Grupo Unis. Atende presencialmente e on-line em seu consultório particular. Membro fundador do Interfaces em Psicanálise. Organizador de Revista Científica de Psicanálise. Professor e Coordenador da Pós-graduação em Topologia e Psicanálise. Colunista no Blog do Madeira.
Começo este artigo com a pergunta que parte de afirmações, como: “Segredos para encontrar um grande amor”. Porém, vou convidá-lo para uma viagem que percorrerá perguntas e respostas clichês, para que reflita sobre o que está por detrás dessa busca. Pronto, pronta ou pronte para o embarque?
Chego a Buenos Aires, Argentina. Tomo o Uber, o motorista está escutando a rádio local, e nela toca a música do cantor, Andrés Calamara, “No Se Puede Vivir Del Amor”. A letra da canção apresenta uma conversa com diversas circunstâncias, entre as quais, que não se pode viver uma vida apenas em função do amor. Calamara descreve que o amor não paga contas, não garante a comida, não compra a casa e, ainda, que é fácil perder a razão quando se ama demais. Entretanto, não são as afirmações de um amor não-todo, que mais chamam a atenção, mas as formulações: “Do que falamos quando confabulamos sobre o de amor? Por que cantamos canções de amor?”.
“Buenos días, muchas gracias” (bom dia, muito obrigado), agradeço a gentileza do motorista. A música ressoa em minha mente retomo a ideia que Freud desenvolve em “O Mal-estar na civilização”: Diante do desamparo, o amor se coloca como uma solução frágil, uma vez que se pode perder o objeto amado, devido a sua morte ou ao desejo de partir. Entretanto, o que se almeja no amor, assim como em outras soluções humanas, é a completude.
O amor é um signo, situaria o psicanalista francês Jacques Lacan. A origem da palavra “signo” vem do latim signum, que significa “marca”. Há outra hipótese etimológica vinda do grego secnom, raiz do verbo “cortar” ou “extrair uma parte de”. Para quem viaja pela obra de Lacan, sabe que o psicanalista passeia com as palavras, extraindo seus sentidos e, às vezes, apontando a dupla ou tripla face do sentido delas. Neste contexto, pode-se refletir que existem duas fácies visadas na noção de amor: a primeira, como um ideal, que outro supriria, tamponando a falta. A segunda reconhece a parte que falta como a “marca” de um corte, cuja extração é o espaço para se movimentar na vida.
Sobre essa relação com a falta, Shel Silverstein, autor do livro “A parte que falta”, constrói um personagem na forma de uma roda com a ausência de um triângulo, que ilustra isso. Em um primeiro ato, o personagem está investigando, com o intuito de encontrar o que lhe falta. Nesse caminho, conversa e aprecia flores, animais e experimenta diversas partes até encontrar uma de encaixe exato. Ocorre que, quando a encontra, põe-se a girar com muita velocidade, deixando de apreciar e de sentir o cheiro da flor, de conversar com outras partes e / ou com animais. Abdicando de cantar, como fazia antes. Em resumo, quando se tampona a falta, perde-se a experiência.
Voltando à viagem. Encontramos um casal brasileiro em Buenos Aires, que disse estar correndo para ver todos os lugares turísticos da cidade, para tanto nem almoçavam nem jantavam, comiam Snacks para não perderem tempo. Contaram que não foram e nem iriam ao tango, pois queriam fazer o maior número de visitas a prédios ou lugares. Ao escutar esse relato, lembrei-me do meu fazer como psicanalista e comentei com minha companheira: “Lidamos com a experiência de uma viagem, da mesma maneira que criamos os roteiros neuróticos para nossa vida, com a mesma incapacidade de perceber que, em cada decisão, está-se sempre a perder, jamais vamos ‘viver tudo o que há para viver’, como canta Lulu e diria, mesmo se nos permitir. Afinal, viveremos a experiência parcial, nunca total.”
Para aquele casal, restará o relato de ter ido a diversos lugares, mas faltará a experiência gastronômica, o contato com as pessoas, a música, o teatro, a cultura… o surpreende-se com o choque da língua, que, por mais que se saiba espanhol ou castelhano, depara-se com o limite das palavras, as quais portam sentido em um lugar, mas diferente em outro. Esse estranhamento de uma língua recoloca a experiência com o inconsciente, como lembra Lacan, “estruturado como uma linguagem”, que sempre requer tradução. Vale lembrar que toda tradução é um exercício de perdas e de aproximações. Um fazer rico, que mostra os limites, que acena para o não-todo. O amor, como símbolo do que falta, pode ajudar a criar roteiros de viagem e de como viajar pela vida de um jeito mais interessante.
Secretária da Argumento Jornalismo Ltda (BlogdoMadeira e Jornal Folha de Varginha). Estudante de Publicidade & Propaganda.




























Respostas de 2
Muito interessante o texto . O amor traz várias performance…cada ato, cada movimento, cada dor…cada viagem…mesmo se for um amor na solitude da vida de um solitário. Ele ama com a mesma intensidade.
Parabéns Janilton. Falar de amor no sentido de desconstruir o romantismo é sempre muito bem vindo visto a quantidade de problemas que tal romantização trás. A pesar de eu ser particularmente romântico, acho que Freud (se não for ele certamente é outro(a) autor(a) psicanalista) que o amor não é um encontro a primeira vista, mas sim um reencontro; quando reencontramos traços das pessoas que amamos na infância e não pudemos ter, ou seja, pai e mãe geralmente. Ou seja, quando adultos e vemos características físicas ou psicológicas em alguém que sejam semelhantes a de nossos pais, passamos a amar essa pessoa. Eu entendo dessa forma e posso estar enganado nessa interpretação, mas parece que a questão se dá nessa lógica mesmo. Isso tudo acaba meio que estragando a beleza do amor, mas tudo bem.
Antônio Abujanmra sempre recitava uma frase: “o casamento é a morte da alma”, já Freud disse que “o casamento cura a maioria das neuroses” e ainda há quem diga que “casar é se acomodar” ou algo assim. Sei que o tema não é casamento, mas tange isso, então gostaria de propor uma discussão e reflexão nesse sentido.
No link abaixo podemos ver Márcia Tibure falando sobre o casamento e achei muito legal quando assisti: https://www.youtube.com/watch?v=gVZ_GYbt1sY