A Tragédia dos Sucessores Indesejados

O dogma darwinista e a coragem que falta à ciência

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Há uma velha máxima na política segundo a qual ninguém escolhe um vice pensando em entregá-lo o poder. Escolhe-se um vice para compor fotografia, equilibrar a chapa e, de preferência, não causar insônia.

Em Varginha, a teoria ganhou contornos quase científicos.

Verdi Lúcio Melo reelegeu-se prefeito ao lado de Leonardo Vinhas Ciacci. O eleitor, sempre ingênuo nessas questões, imaginou que o vice estivesse sendo preparado para suceder o titular. Afinal, esse costuma ser o objetivo de uma sucessão política.

Ledo engano.

Se existiu algum plano para fortalecer Ciacci, ele permaneceu tão bem guardado que jamais foi encontrado.

Na primeira oportunidade de impulsionar a carreira política do vice, Verdi preferiu apostar em Carlos Honório Ottoni para deputado estadual. Não deu certo nas urnas. Mas, como toda boa derrota política tem seus prêmios de consolação, Carlos Honório acabou exercendo, na percepção de muitos observadores da administração, funções dignas de um primeiro-ministro. Formou-se um núcleo de poder tão sólido que, às vezes, ficava difícil saber onde terminava a Prefeitura e começava o condomínio dos iluminados.

Enquanto isso, o vice seguia praticando a mais antiga modalidade olímpica da política brasileira: esperar.

Esperar o tempo passar.

Esperar o telefone tocar.

Esperar a confiança chegar.

Esperar que alguém finalmente descobrisse para que serve um vice-prefeito além de aparecer na fotografia oficial.

Vieram as eleições municipais.

Os corredores da Prefeitura transformaram-se em verdadeira Bolsa de Valores das apostas políticas. A cada esquina surgia suspeita de um novo candidato preferido. A cada café servido, nascia um novo estrategista. Havia tanta gente afirmando conhecer os planos de Verdi que, se todos estivessem certos, Varginha teria uns quinze candidatos oficiais.

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No fim, Leonardo Ciacci foi mesmo o escolhido com mérito.

Ou, quem sabe, foi apenas aquele que já não podia deixar de ser escolhido.

A composição da chapa trouxe Antônio Silva para a vice prefeitura. Segundo muitos, uma decisão importante para consolidar a candidatura. Curiosamente, depois da vitória, ocorreu um fenômeno político já catalogado pela ciência: multiplicaram-se os pais da criança. Metade da classe política passou a jurar que sempre acreditou na chapa, que participou da construção, que aconselhou, que articulou e que, se possível, também escolheu o nome do eleitor.

Na política, a vitória tem mais padrinhos que um casamento italiano.

Ciacci venceu.

E herdou um governo.

Ou, para usar uma expressão mais adequada, herdou um apartamento mobiliado.

Veio com móveis.

Veio com moradores.

Veio com regras de convivência.

Veio com algumas obras importantes inauguradas antes de estarem completamente prontas, uma prática moderna em que a fita inaugural parece mais importante que o acabamento.

Vieram também auxiliares cuja permanência parecia atender mais aos desejos do antecessor do que às escolhas naturais do sucessor.

E vieram, segundo críticos da administração passada, questões que poderiam ter merecido maior esclarecimento, mas que permaneceram cuidadosamente embaladas pelo espírito da harmonia institucional.

Leonardo Ciacci poderia ter escolhido o caminho mais fácil.

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Abrir gavetas.

Procurar esqueletos.

Transformar o passado em manchete diária.

Não fez.

Preferiu governar.

Talvez por lealdade.

Talvez por prudência.

Talvez porque compreenda que administrar uma cidade já produz problemas suficientes sem fabricar novos.

E é exatamente aí que nasce a maior ironia desta história.

Imagine o futuro.

As eleições se aproximam.

Verdi decide voltar pré-candidato a deputado estadual.

A política, essa senhora sem memória, manda que ele procure justamente Leonardo Ciacci em busca de apoio.

Será uma cena memorável.

O antigo titular pedindo ajuda ao vice que nunca pareceu ser exatamente o sucessor dos seus sonhos.

Se isso acontecer, não será apenas um pedido de apoio.

Será uma aula pública sobre a ironia.

Porque a política costuma esquecer muitas coisas.

Mas o poder jamais esquece quem tentou retardar sua chegada.

E muito menos quem, depois de chegar, escolheu não cobrar a conta.

No fim, talvez Maquiavel precisasse escrever um capítulo específico sobre Varginha.

Com um título bastante apropriado:

“Como dificultar a vida do sucessor… e depois precisar dele para sobreviver politicamente.” Será que Verdi terá coragem de pedir o apoio de Ciacci como pré-candidato?

Seria uma obra de ficção.

Ou quase.

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Uma resposta

  1. São muitas as perguntas sem respostas, onde a ausência de uma investigação aprofundada, poderá levar para o banco dos réus, aqueles que acham que o silêncio é a melhor solução.
    Obras inauguradas sem a devida conclusão, obras sem planejamento e que não atendem a finalidade específica, dentre outras.

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