Videogame é esporte? A dessemelhança entre League of Legends e futebol

Uma noite no Capitólio: espetáculo de alunos do Conservatório adapta Ionesco
Edição: Eduardo Bregalda Jr. / Blog do Madeira

publicidade

A recém empossada Ministra do Esporte Ana Moser mandou essa que esports não são esportes, e senti necessidade de meter o bedelho. Sem maiores delongas: meu ponto é que são sim, nossa ministra está fundamentalmente errada, mas adoro que ela tenha dito o que disse. A irritação que isso gerou no gamer médio mimado de apartamento me nutre espiritualmente.

O que há de tão belo e elevador ao espírito humano na competição num jogo de regras? Argumentar se algo entra ou não na categoria “esporte”, um aspecto tão celebrado de nossa vida social, é como elevar algo a uma categoria de “coisa saudável”.

Primeiro: xadrez é esporte? Algumas pessoas reconhecem isso. Estamos incluindo o aspecto mental, e não apenas o físico, para determinar o que há nessa categoria “esporte”. Na aula de Educação Física de pelo menos uma escola que já estudei, aos desinteressados em futebol, xadrez era uma opção. A profundidade vertiginosa das possibilidades de escolhas e os jogos mentais que são necessários para uma boa partida de xadrez são um argumento a favor. Seria, de certa forma, um “esporte mental”. Por esse argumento, a única forma de recusar que outros videogames sejam esportes é sendo um vovô adorniano mofado. Gritar pra nuvem “Indústria Cultural!” e ficar por isso mesmo. Isso porque videogames são capazes de tanta (senão mais) profundidade nas complexidades possíveis de suas escolhas quanto xadrez, e possuem também uma tradição de partidas e movimentos notáveis. Jogos de tabuleiro e cartas são igualmente dignos do mesmo mérito, na complexidade de suas mecânicas. Não tô falando que Uno e Detetive são tão intelectualmente estimulantes quando destrinchados em suas mecânicas fundamentais quanto Xadrez, mas tente com sinceridade um dia pedir uma explicação de como funciona Magic, ou compre uma caixa de papelão da Galápagos de 300 reais e sente com um board game mesmo numa mesa de entusiastas, e abra o coração pra beleza que existe em jogar.

Mas podemos excluir o xadrez e focar apenas no físico. Esportes são futebol, vôlei, basquete, tênis, até peteca pode (oh negócio chato). Beleza. Videogames são sedentários, né? Não há esporte sem força física. Ok, e arquearia? É corpo. Tanto quanto mirar um mouse ou acertar um combo confirm. Afinal, o grande esportista não é o que tem o melhor corpo, é o que tem melhor domínio e maestria sobre o próprio corpo, para executar seu papel com habilidade dentro das regras de um jogo. Havia um fumante na seleção da Croácia ano passado que viralizou. Brozovic correu 71km na Copa. Seu pulmão é tão forte que quase parece uma piada de mal gosto comigo que sou asmático. Beleza, mas ele não faz o que o Pelé fez, pois é um tipo diferente de domínio.

Leia Também:  Meditação sobre Yoshi’s Island, um dos melhores jogos do Super Nintendo

Nesse caso, a argumentação vai soar fraca pra quem não tem a experiência pessoal. Mas é fato: videogames funcionam da mesma forma. É maestria do próprio corpo possuir movimentos motores finos memorizados. É de outra ordem o preparo de um jogador de futebol e do arqueiro, mas ambos são esportistas. E a experiência comunal de equipe vs. equipe com plateia, organização de estratégia, treinamento, aproxima uma partida de League of Legends mais de futebol que de arquearia.

Então pra mim, esport é esporte sim, beleza.

Ainda, não ressinto Ana Moser.

É fato que a discussão tem mais a ver com aspectos sociológicos. Governos do PT são historicamente apáticos com videogame. Eu vi gente gritar “Fora Dilma” na esperança de pagar mais barato numa placa de vídeo importada. É fato que o governo não quer disponibilizar subsídio pra essas empresas multibilionárias que mantém seus esports. E na real, a Ryot e a Valve que arrumem seus patrocinadores na hora de lotar estádios com partidas de CS e LOL.

Só que futebol não é nada diferente.

Há algo de belo no sonho que um esporte permite pra muita gente pobre subir de vida com base no estrelato. É uma narrativa complicada, que me irrita, por causa do “mito de indivíduo” que perpetua, mas eu boto fé. Não vou invalidar essa experiência de vida, esse sonho da garotada que dá suor e sangue e, mesmo que nunca “chegue lá” consegue viver seu sonho até onde dá. A inclusão dos esportes como pauta social de governo possibilita investimentos que ajudam crianças assim a correr atrás de seus sonhos. Porque esports demandam computador, internet, tá, não é de graça, mas tá achando que futebol é barato? Uma bola de padrão competitivo? Um uniforme? Ou pelo menos uma chuteira? Nisso, já há uma geração inteira crescendo que sonha competir numa CBLOL, assinar com um patrocinador, tirar selfie com aquele otário do Ninja num evento internacional. E é sim uma possibilidade, porque videogames não são mais artigos de luxo. São ubíquos. É mais fácil jogar FreeFire no celular da sua mãe que ganhar uma bola, arrumar espaço, uma quadra ou rua razoavelmente segura, e juntar sua turma.

Leia Também:  Uma infância ao lado dos gêmeos grafiteiros mais bonitos de Varginha

E como se o governo não pudesse dar um subsídiozinho aqui ou acolá pra umas crianças carentes jogarem LOL em escola pública fora de horário de aula, quando já molha tanto a mão de organizações como a CBF e os clubes tradicionais, que todo mundo sabe, são máfias mal geridas, parasitando a boa vontade do público e os próprios atletas a quem o estrelato tanto prometeram.

No mais, é um grande alívio poder criticar um governo usando a cabeça, e não tentando gritar o mínimo de bom-senso, lógica e humanidade pra um abismo. Espero que a ministra um dia reveja sua posição de forma produtiva, mas problema é dela, caduca quem quer. Ver “gamer” passando raiva na internet não deixa de ser um prazer.

E claro que não tô defendendo todo videogame aqui. Porque a maioria dos videogames, como a maioria dos filmes, dos livros, da TV, da música que sai todo ano, é supérfluo. É produzido por demanda comercial por profissionais que são pagos pra fazer o que mandam. Estamos muito acostumados a aceitar os esportes porque eles são velhos. É mais fácil aceitar algo como já é que ter de se posicionar com uma novidade. O problema é que, com o andar da carruagem, o mundo tá cada vez mais assolado por novidade constante. Em águas assim, deve se buscar a superfície, mas também ir com o fluxo, pois afogar já é fácil.

Conheça o autor da nossa nova coluna “Impressões digitais”

Kelvin Matheus Rosa é graduado em Letras pela UFSJ e atualmente está no Programa de Mestrado em Letras (PROMEL) da mesma instituição, na linha de Pesquisa Literatura e Memória Cultural. Lançou em 2020 o livro Libélula 44 em formato fanzine, no Museu Municipal de Varginha. Performou poesia em São João del-Rei e Tiradentes em 2019, no Inverno Cultural da UFSJ e Festival Artes Vertentes. Nasceu em 1996, ano de lançamento do Nintendo 64 e do caso do ET. Divide aniversário com Oscar Wilde.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade