Quis comprar um livro de escrita criativa na Estante Virtual. Como sou professor, quis me manter atualizado, e descobri que o livro “Steering the Craft”, da Ursula Le Guin, autora de ficção científica celebradíssima, foi lançado no Brasil, com o nome genérico “Como criar histórias”. Pesquisei o livro. Seu preço de capa: R$ 70,00.
Beleza: livros estão ficando cada vez mais caros no Brasil. Isso é um problema. Agora, por pior que o mercado editorial seja, tenho amigos cuja profissão depende desse mercado. Tradutores, capistas, designers. Eu quero que livros sejam acessíveis, e também quero que pessoas inteligentes tirem seu sustento de livros.
Logo, estou disposto a não comprar na Amazon. Sua estratégia de mercado é simples: perder bilhões todo ano em varejo de livros, comprando um grande volume e vendendo todos os títulos abaixo do preço que qualquer livaria poderia revender. Essa é uma estratégia global para destruir o mercado editorial, e fazer as pessoas dependerem mais do Kindle, que é uma plataforma cheia de problemas, como a capacidade de retirar um livro que você já tenha comprado de sua coleção particular, de acordo com os desejos da plataforma Amazon. Os preços da Amazon são tentadores, porque são impossíveis. Tirando os pequenos autores, que encontram no Kindle uma forma simpática de receber algum dinheiro, toda a economia de empregos com livros está em conflito direto com o modelo da Amazon, que prega a destruição de todas as instituições que vendem livros com base em concorrência desleal não regularizada.
Um jeito de conciliar as duas coisas é comprar livros usados na Estante Virtual. Adoro visitar sebos. A maior parte de minha formação literária aconteceu com livros de sebos no precinho. O Sebo Rumo novo em Varginha, que visito desde a infância, foi crucial pra minha formação. Posso comprar livros usados mais barato, sem dar dinheiro pra Amazon, mesmo se não estiver disposto a pagar o preço de capa que o mercado editorial pede.
Então, percebi algo estranho. Enquanto a Livraria Martins Fontes Paulista, tradicional de SP, vende o livro novo a preço de capa, você pode ver cópias novas em preços de R$52,00 ou R$56,90.
Quando pesquisei essa Livraria dos Vovôs, algumas avaliações positivas. “Sim”, “tudo ok”, e no meio das avaliações, casos estranhos como esses:
Embora a experiência de “Arnaldo” tenha sido péssima, ele ainda recomenda a compra. Talvez por um desejo ressentido de que outras pessoas passem pelo que ele passou. Bem, esse é o motor de todo o populismo da extrema-direita, mas estou divagando. Vejamos outra avaliação:
O “Marcos” foi mais sincero, mas ainda deu 3 estrelas para uma experiência que parece 1 estrela. Parece professor de ensino fundamental passando aqueles alunos que considera sem salvação na risca da média, pra não aguentar a criatura por mais um ano.
Bem, e as histórias se acumulam. Postagem demorada, código de rastreio não informado, não chegou o que foi comprado. Enquanto as avaliações positivas se resumem em silêncio e monossilábicas: “Bom”. “Excelente atendimento”, “tudo ok”.
Então percebi que na loja “Artclub Store”, que também vende o livro abaixo do preço de mercado, o padrão se repetia. Veja essas duas pérolas:
Ambas as livrarias escolhidas para exemplo aqui, a Livraria dos Vovôs, e a Artclub Store, possuem um catálogo impressionante: 179.809 livros a primeira, 190.884 a segunda. E são lojas recentes. São de 2020 e 2021, respectivamente. Haja fogo no mouse pra cadastrar esses catálogos massivos.
Minha namorada, de brio impressionante, quando contei isso tudo, me ajudou a brincar de jornalismo (por favor, não nos tratem como jornalistas). Ela pesquisou a Livraria dos Vovôs, e encontrou a seguinte postagem no Reclame Aqui da Estante Virtual.
Essa LT2Shop possui loja no Estante Virtual e na Shopee. Pelo visto, se trata de uma plataforma de comércio virtual que abusa de sistemas de automatização para conseguir boa reputação e tomar prioridade nas vendas.
Encontramos um endereço físico
Bem, o modelo de trabalho parece muito com os dropships que já dominam o varejo virtual: revender sem manter estoque, comprando apenas quando um usuário perdido na internet compra de sua loja. Robôs declaram livros que não possuem em estoque. Compram para revender. Inflam o preço do frete. Às vezes enviam. Se alguns usuários tiverem uma péssima experiência, não há serviço de atendimento humano. A sra. “Laryssa Raymundo”, se existe, está ali para bloquear sua capacidade de tirar satisfação. Acumular reclamações. Inflar o algoritmo artificialmente, para ser uma das primeiras opções de compra disponíveis nas plataformas de venda.
Abusar de algoritmos, garantir a venda. O consumidor final que se dane, o importante é consolidar a plataforma. Foi assim que elegeram o Bolsonaro.
A plataforma Estante Virtual permitir esse tipo de abuso não-moderado de seu sistema é uma pena. Provável que seja financeiramente viável para eles? Acaba que nem comprei o livro ainda, mas fica o aviso a quem couber. Não comprem da Livraria dos Vovôs. Desconfiem de preços baixos demais.

Jornalista profissional (formado em Comunicação Social e Direito), radialista e cerimonialista. Escreve sobre política desde 1993. Fundador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Servidor municipal. Comendador do Mérito Legislativo de Minas Gerais. Diretor de Comunicação da ACIV (Associação Comercial de Varginha) e vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas de Varginha). Foi membro da Academia Varginhense de Letras. Diretor da Abraço e do Voluntariado Vida Viva. Comentarista político da Rádio Clube de Varginha (99,3 FM). Organizador do livro “Narrativas de Nico Vidal”. Autor do livro “Causos da Política (acontecidos em Varginha)”. Apresenta o Blog ao Vivo e o Podcast Varginha em 1 minuto ou mais. Cozinha pra família nos finais de semana (às vezes fica bom). Cruzeirense.



































Respostas de 2
Sempre fico desconfiada quando vejo no estante virtual, e acabei aqui no seu blog por pesquisar essa livraria pra tentar entender que picaretagem podia ser. Também não compro na amazon e muitas vezes compro pelo estante, mas quando é livro novo fico com pé atrás e quase sempre dou preferência pra uma livraria física, mesmo se for um pouco mais caro.
Comprei durante muito tempo pela Estante Virtual, pois não consigo ler no Kindle e o livro físico para mim, com a LUPA ELETRÔNICA ainda é o mais viável, por questões visuais. Eu fiz um comentário exatamente como esse na livraria do vovô e em mais duas outras livrarias. Deixei de comprar na Estante Virtual e compro agora direto de um sebo de Araçatuba que é impressionante no atendimento, pelo menos comigo. O sebo da Luciana, aqui em Varginha tem também me atendido bem. Aí fica aquela coisa de atravessadores de livros, o que acaba por aumentar o valor do livro também.
Mas a AMAZON, acho o fim do mundo, um descaso com a literatura…