Figurinhas da copa

Uma noite no Capitólio: espetáculo de alunos do Conservatório adapta Ionesco
Edição: Eduardo Bregalda Jr. / Blog do Madeira

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Seiscentos reais da conta de água?  Ele pensou que a Copasa estava ficando louca. Nenhuma goteira na casa. Suzana vigiava os banhos das crianças. Até na hora de lavar louça a esposa tentava ser rápida. Eurico segurava a conta recém-tirada da caixa de correio no muro de sua casa, nos lados mais quietinhos do Santana, ouvindo os filhos berrarem KAMEHAMEHA no quarto compartilhado.

Eurico foi beber água na cozinha. Passos descalços de crianças correndo. Os meninos descontrolavam quando a mãe não estava em casa. Resolveu abrir uma Brahma antes do almoço. Olhou para baixo. Encarou o piso da cozinha através da circunferência de seu sobrepeso. O piso era marrom e tinha manchas onde ele gostava de imaginar desenhos como se olhasse para as nuvens. Já era a terceira conta sem pagar. Unimed, Cemig, internet, Disney pras crianças, agora isso, e as vendas fraquíssimas, porque material de construção só vende se o povo tiver dinheiro pra construir.

O sol estava tímido naquela sexta gelada de fim de Maio. Quando a esposa chegou da casa da sogra, portava quatro pacotes de figurinhas da Copa. As crianças ficaram doidas, mas ela não podia comprar dois pacotes só? Os meninos iam ficar felizes do mesmo jeito. Cada pacote era sete reais, quatro era quase trinta conto. O que aconteceu com as figurinhas a cinquenta centavos?

Tiago sempre tinha inveja do Pedro, porque Tiago era caçula. Eurico via no Tiago uma moleza, uma dependência da mãe. Chorão, lento nos estudos, medroso. Quando viu que Pedro tirou o Messi e o Cristiano Ronaldo no mesmo pacotinho, Tiago começou a chorar. Aí Suzana, mãe, esposa, sempre paciente, sempre engolindo sapos, parou de pôr a mesa pro almoço e correu ao socorro. A inteligência emocional de seu marido (Suzana reparava desde que aprendeu aquela expressão com a irmã professora) era zero.

— Divide com seu irmão: o Messi ou o Cristiano Ronaldo. — Suzana pediu.

— Mas isso não é certo, mãe! A figurinha é minha! É minha! Eu que ganhei! — Pedro reclamou, aquela inteligência feroz por trás dos olhos de jabuticaba iguais aos da mãe. O cabelinho de cuia tampando a testa e um pedacinho das sobrancelhas severas. Eurico pensou que ele era mesmo a cara da mãe.

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— É verdade, Suzana. O Tiago tá triste, mas não é certo com o Pedro não, tirar o que é dele. — Eurico interferiu, do alto de sua lata de cerveja. Era sempre assim, claro, ele do lado do Pedro, do mais forte. Suzana olhou feroz para o marido. Os mesmos olhos do Pedro.

— Qual é o problema de dividir a figurinha com ele? Vocês dois gostam de futebol, dos mesmo jogador, é tudo a mesma coisa, Pedro.

— Não é não, mãe! Você não tá sabendo? São as duas figurinhas que todo mundo mais quer! Tem gente que vendeu por mais de trezentos reais na internet!

O pai quase esbugalhou os olhos. Suzana boquiaberta. Eurico deixou sua latinha no console da TV. Pegou as duas figurinhas, olhou para os rostos dos dois jogadores.

— Trezentos reais nisso aqui?

Tiago chorava, sua boca enorme igual ao pai. Pedro quis explicar, sentindo-se inteligente, do alto de seu cabelinho de cuia.

— É, pai. O Felipe, filho do padeiro, ficou chorando uma vez porque o pai tentou pagar cem conto só no Messi, mas o Jean da escola não quis vender de jeito nenhum e colou no álbum dele.

E o pai do Jean? Hilux na garagem e dinheiro de café. Devia ser bom. O moleque dele só estudava ainda na pública porque queria. Não devia atrasar Copasa. Devia ser bom.

— Pedro, a gente tem que vender essas figurinhas. — Eurico disse ao filho. Sentiu o rosto queimando de vergonha.

— De jeito nenhum! É minha! É minha!

— Vende! Vende! — Era o pequeno Tiago, pela primeira vez tomando o partido do pai.

— Eurico! Você tá louco? É do seu filho! — O olhar de Suzana era uma adaga.

— A gente compra dez pacotes se o Pedro quiser! — Eurico encarou a esposa, seu rosto de suplício. — Mas a gente tem que pagar a Copasa, Suzana! Não tem dinheiro! Podem cortar na segunda!

— Dá um jeito! — A esposa replicou, sentindo raiva e vergonha do marido ser pobre. — Pra cerveja você tem!

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E os filhos ao fundo, Pedro chorava sob  seu cabelinho de cuia. Tiago, ainda de bochechas marcadas e olhos avermelhados de chorar, agora sorridente, gritando “Vende! Vende papai!”.

— E você vai pagar então a água? — O marido subiu a voz, num misto de vergonha e frustração. — Ninguém me ajuda! Só gasto e gasto nessa casa!

Aí a coisa ficou impossível. Suzana tentou pegar as duas figurinhas da mão do marido Pegou Eurico no pulso, mas ele resistiu, na frente ali das crianças mesmo. Então Tiago partiu pra cima do mais novo, e aí a mãe parou para acudir, mas Eurico ficou ali, segurando as duas figurinhas, como se aquilo tudo estivesse acontecendo com outra pessoa.

Um tempo depois, quando tudo acalmou, e o silêncio daquele dia frio invadiu as paredes da casa, Eurico tentou negociar com Suzana:

— É São José que mandou esse pequeno milagre pra gente, quando eu tava aqui pensando meu Deus, como vou fazer pra pagar essa Copasa? Você viu o preço que veio?

— Você acha que São José ia mandar intervenção de anjo pra você fazer o filho chorar, Eurico?

— Eu acho que ele ia chorar mais se a gente ficasse sem água.

No fim, Eurico foi sozinho, sem as crianças, até a padaria, com um sorriso no rosto e uma vergonha profunda. Fecharam negócio, Eurico fez o sinal da cruz contando as notas, e foi até a lotérica pagar a Copasa. Não cortaram a água aquele mês. Jean-filho-do-padeiro colou as duas figurinhas em seu álbum. Algo dentro de Pedro endureceu, seu olhar ficou mais severo, ele pediu pra cortar o cabelo de cuia, e nesse ódio novo pelo pai aprendeu a ver o mundo mais como ele.

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