Kelvin Matheus Rosa volta ao BlogdoMadeira em grande estilo. Ele abre as comemorações do site pelo Dia do Rock (13 de julho). Em tempos de concentração ictíica, adequadamente indica LPs com menos de 20 minutos. Bem-vindo! Bora ver as dicas:
Todos somos incapazes de suportar o silêncio. Se você é da mesma geração que eu, tem sempre um vídeo tocando.
Minha irmã vive fazendo faxina ouvindo podcast. Fechar o podcast ou live ou vídeo do Youtube que está papagaiando na sua cabeça enquanto você não presta atenção pode ser um ato imbecil mas sincero de resistir aos impulsos de dominação por distração de nossa cultura de massa.
Fechar o vídeo que você não está prestando atenção e ouvir uma música, em 100% dos casos, faz bem pra alma.
Conforme a baixa capacidade de atenção de nossos cérebros derretidos por redes sociais, aqui vão 7 discos incríveis com menos de 20 minutos pra você cuidar da sua alma. Todos estão disponíveis no Youtube Music. Quanto ao Spotify, não me garanto, pois não pago Spotify Premium.
Good Kid – Good Kid (2018)
Vamos começar leve, com um emo de riffs grudentos e um vocal ululante e choroso. Você gosta de My Chemical Romance e coisas dessa laia. Então vai gostar. Sim, não foi uma pergunta. Você gosta, tenho certeza. Até eu, que sou um POSER, gosto de MCR. Você gosta sim. Pode achar que não, mas se fizer terapia direitinho e aprender a se expor mais à fragilidade emocional, perceberá. De qualquer forma, em pouco menos de 17 minutos, esse delicioso EP passeia por seis músicas de fragilidade emocional sem tempo para desacelerar. Eu não sou emo, e senti vontade de comprar uma camisa flanela, voltar a colocar XD X3 e >.< nas minhas mensagens de texto, e desenhar criaturinhas com lapiseira, bonequinhos tipo Invasor Zim, com corpos geométricos, olhos gigantes assimétricos esbugalhados e boca costurada, asas de morcego, acompanhados com mensagens evocadoras de amores perdidos, numa tipografia de letras maiúsculas ranhuradas.
Le Tigre – From the Desk of Mr Lady (2001)
Não é rock. É alguma coisa. Alguma coisa mais colorida, com loops eletrônicos mesclando-se com os vocais de punk de Kathleen Hanna, do Bikini Kill. A alquimia produz um disco com a textura sonora da colagem. É como ouvir um fanzine. Ouça os trechos de TV nas músicas, as texturas, remixes, e loops de percussão não-convencionais. A eventual guitarra crocante e sufocada na eletricidade. A raiva e a brincadeira se misturam o disco todo. Sinta a força premonitória dos vocais gritando “GET OFF THE INTERNET” já na primeira faixa. Nada ali envelheceu.
Royal Treatment Plant – RTP (2005)
Próximo do grunge, mas melódico e aéreo. Rock alternativo pro gosto de Smashing Pumpkins e Pixies, como se bruxas de All Stars fizessem uma banda. Estamos entrando em águas esquisitas das quais não nos recuperaremos mais. No meio do disco, a música mais intensa é “Leave you Now”. Em geral, o som é suave, mesmo com as marcas de amargor, ironia, de sensações negativas que precisam ser extravasadas. Do mais suave ao mais intenso, não há estridência, não há a satisfação da entrega completa ao rancor, da entrega à raiva do ruído, como faria Kathleen Hanna, mas uma contensão, um desejo de manter-se em pleno ar. A delicadeza é um axioma, mesmo sob confronto. É um disco lindo, que lembra vasos de planta que cresceram demais na cozinha, se multiplicaram, e já tomam a sala e o escritório.
Citrus – Wispy, No Mercy (2000)
Uma vergonha, mas conheci este disco numa lista de álbuns favoritos de todos os tempos de, pasmem, um youtuber falando de videogames. E o disco é inacreditável. Esquisitinho, precioso, cuidadoso em sua aparência de desleixo. Um som aéreo e polirritmico, cheio de doçura. Nenhuma faixa aqui vai te lembrar nenhuma outra música que você já ouviu na vida. A primeira vez que eu ouvi eu não entendi nada, mas achei bonito. Agora, tenho certeza que é impossível que eu compreendo alguma coisa, e que é um dos discos mais inteligentes que já ouvi na minha vida. Tudo sem a pretensão de um Godspeed You Black Emperor da vida fazendo discos de mais de uma hora. Eventualmente, do pop fofo sufocado por reverbs e texturas elétricas, vamos para riffs de punk, só para tudo desintegrar, no meio da mesma música, em sons cristalinos, uma bateria frenética, e vocais suaves acompanhados por guitarra, baixo, e até instrumentos de corda, numa produção sufocante, onde muitos instrumentos bonitos brigam por cada frequência captável por seu ouvido. O disco encerra em doo-wop doce, no meio de uma frase.
Tiny Mouse – Little Ones Journey (2019)
A música de estar dentro de um desenho animado que não existe. Você ouve as aventuras de um ratinho no seu ouvido, e imagina elas no olho da mente. Impressionante como a música consegue SER um desenho animado imaginário, e não apenas uma trilha sonora de um desenho animado imaginário. O som é aconchegante, meio triste, com a alegria distorcida pela passagem do tempo, como acontece com a sonoridade de fitas cassete. Por vezes, uma abertura emocional forte demais acontece na brincadeira de música de animação infantil. A terceira música é capaz de me dar arrepios, segurar as emoções elevadas que a poesia mais alta almeja. Algo ali evoca com muita força o desejo desse retorno impossível para a casa que não existe mais. Curiosidade: tecnicamente, esse disco é um subgênero de metal extremo sueco. É sério.
Twinkle Park – Touched or been touched by (2021)
Shoegaze com vocaloid e chiptune. Se você entendeu os três substantivos da frase anterior, parabéns, você devia ficar menos tempo na internet. Produção suja, mas esplendorosa. Elementos de música eletrônica. Pura energia pulando de faixa em faixa, reavivando todo o desejo de vida, reavivando o rock, as emoções puras de entusiasmo da juventude que os mais espiritualmente antenados preservam no fundo do coração, enquanto a vida tenta te tirar. Uma obra-prima sonora despretensiosa da Hazel, uma otaku trans que faz vídeos no Youtube sobre anime.
GASPACHO – Gaspacho (2022)
Você caiu na minha armadilha. Este texto era, na verdade, uma forma de promover o disco de minha namorada. Feito durante a pandemia, Gaspacho é um punk improvisado e despretensioso, mas impactante. O disco todo tem dez minutinhos. Quase toda a mixagem soa abafada, sufocada num apartamento distante, numa cidade apocalíptica. É um disco de duas melhores amigas que estão ficando malucas na pandemia, como aconteceu com tantos de nós. Abrimos com “Anger and Hate”, que dá um tom de grungismo com as percussões maravilhosas de minha amada Juliana Trevisan na bateria. Porradeira. Na forma que essa música acaba você já entende a ideia do álbum: breves ideias que explodem na sua cara. Então, “Pandemônio”, o hit do disco, sobre a facada maldada que todos nos lembramos. Punk politizado sincero demais pra meias palavras. A raiva que a consciência política traz. Geralmente, o público canta essa nos shows. Eu já vi três shows delas: BH, São João del-Rei, e Juiz de Fora. Elas arrasam. “Short Sessions of Crying” tem paredes de noise belíssimas, pra quem gosta de chafurdar em ruído e desgraçar a cabeça. Daí, “Produtividade”, quase no wave, com estridência apocalíptica, consegue ser ainda mais triste que a anterior. Então, “Intuition or Paranoia”, que começa já no ruído, e encerra breve, após a paranoia tomar tudo. Seguimos com uma música com plástico-bolha e vocal (o cover de “Honey Pot”, do Beat Happening). Daí uma música de amor que soa ameaçadora, mas é mó fofinha com o contexto certo, a “Art School Sucks”. Encerramos em “Saudade”, onde os vocais e a bateria de Ju se mesclam com o desabafo da guitarrista Liz, na música com mais abertura, se pensarmos nos instrumentos, pra emoções positivas. A saudade dói, mas a saudade também nos conecta com as coisas. É o desejo de conexão que gera a saudade. E é essa falta que sentimos ali no final, num disco que acaba nessa abertura emocional, embora até pra explicitamente cantar uma canção de amor, elas usaram da máscara do monotom Daria e Jane desprezando o mundo, da dissonância, do ruído agressivo, de algo próximo da distância emocional irônica. Pra saudade, não. Só o peito aberto serve. E essa saudade, assim como o trabalho gráfico belíssimo, com o vermelho vivo da sopa de letrinha, me inspira a correr atrás de escrever meu romance. Eu estou editando um romance. Sim, dentro da minha armadilha tinha outra armadilha. Agora estou promovendo meu futuro romance também. Se passa em Minas Gerais. Estrela uma garota punk que mora numa Kombi. Eu comecei a imaginar as histórias com quatorze anos de idade. É pós pós-apocalíptico, e se eu fizer as coisas direito, pós pós-moderno. Várias vezes já fiquei imaginando cenas da história na minha cabeça, como um bobão, enquanto ouvia as músicas do debut da Gaspacho. Cada segundo aqui não é calculado, como nas músicas de prodígios técnicos, mas é com certeza intensificado pelo fogo no peito de duas nerds do punk experimentando com a dimensão de seu brilho, e com o legado que as inspira. Se esse é só o primeiro disco, veremos o que virá depois.
O autor
Kelvin Matheus Rosa é graduado em Letras pela UFSJ e mestre em Letras pela mesma instituição, na linha de Pesquisa Literatura e Memória Cultural. Lançou em 2020 o livro Libélula 44 em formato fanzine, no Museu Municipal de Varginha. Performou poesia em São João del-Rei e Tiradentes em 2019, no Inverno Cultural da UFSJ e Festival Artes Vertentes. Nasceu em 1996, ano de lançamento do Nintendo 64 e do caso do ET. Divide aniversário com Oscar Wilde.
***As opiniões e conceitos emitidos nos textos assinados por nossos colunistas; bem como, a exatidão e procedência das citações e informações expostas são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores. Portanto, não refletem necessariamente a posição e/ou opinião da Argumento Jornalismo, proprietária do Blog do Madeira e Folha de Varginha; e de seu Conselho de Leitores.

Jornalista profissional (formado em Comunicação Social e Direito), radialista e cerimonialista. Escreve sobre política desde 1993. Fundador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Servidor municipal. Comendador do Mérito Legislativo de Minas Gerais. Diretor de Comunicação da ACIV (Associação Comercial de Varginha) e vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas de Varginha). Foi membro da Academia Varginhense de Letras. Diretor da Abraço e do Voluntariado Vida Viva. Comentarista político da Rádio Clube de Varginha (99,3 FM). Organizador do livro “Narrativas de Nico Vidal”. Autor do livro “Causos da Política (acontecidos em Varginha)”. Apresenta o Blog ao Vivo e o Podcast Varginha em 1 minuto ou mais. Cozinha pra família nos finais de semana (às vezes fica bom). Cruzeirense.




































Uma resposta
O dia do Rock é 13 de Julho e não 13 de junho.
NOTA DO BLOG: Uh, varada n’água. Obrigado, seu Alaine. Bom que temos um mês pra programar, hehehe…