Meditação sobre Yoshi’s Island, um dos melhores jogos do Super Nintendo

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Edição: Eduardo Bregalda Jr. / Blog do Madeira

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Sou tio há pouco mais de um mês. Decidi jogar de novo um jogo de 1995, em parte após ver no Instagram dum amigo. É um jogo de conforto pra nós dois, e tivemos o privilégio de jogar enquanto crianças num Super Nintendo. Neste jogo, o Yoshi cuida de um Mario bebê, que precisa voltar pra cegonha com seu irmãozinho e ser entregue aos pais. Super Mario World 2 – Yoshi’s Island é um dos melhores jogos que a Nintendo já fez. Mario tradicional pode ser estressante e dar desespero em algumas pessoas. Yoshi’s Island é mais gentil.

Num Mario tradicional, se um inimigo te pega, você encolhe e perde os poderes que tiver. Daí se isso acontecer de novo, você perde e recomeça a fase. Já aqui, se um inimigo te pega, o Yoshi perde o Mario, que começa a chorar dentro de uma bolha. O choro é bem agudo e quase vibra no ouvido, do jeito que choro de bebê costuma ser. O choro da minha sobrinha é assim também. Como minha irmã tem de fazer quando minha sobrinha chora, o Yoshi precisa acudir o bebê Mario chorão, e você sente uma urgência, pois há um contador na tela que se chegar a zero, os capanguinhas do Bowser (que também é bebê aqui) vão sequestrar o bebê Mario, e você perde uma vida. Você pode apanhar quantas vezes for, contanto que consiga acudir o bebê dentro do tempo.

É um jogo de acalanto. Os gráficos são lindos e fazem tudo que o Super Nintendo pode. Alguns cenários parecem giz de cera. A lua é feita de feltro. Os inimigos são engraçadinhos. Um ratinho que rouba os ovos do Yoshi usa máscara de bandido. Isso é muito fofo. Uma hora, você vai encontrar um rato desses com a cabeça presa, andando sem rumo. Isso tirou um sorriso do meu rosto. Há uns jogadores de baseball que rebatem os ovos, se você atirar neles (atirar seus ovos é a arma do Yoshi nesse jogo). Quando percebi as formas que essa mecânica é usada pra te instigar a rebater os ovos nos lugares corretos pra descobrir segredos, eu também sorri. É um jogo que tira sorrisos com sua engenhosidade, te deixa curioso. E você explora tudo no seu ritmo, e se perder a paciência e quiser terminar a fase logo, o jogo também deixa.

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Adultos também precisam de acalanto e isso é muito óbvio, porque a primeira coisa que todo humano faz é não entender o que está acontecendo, ter medo, e chorar, que é um jeito do bebê dizer que quer ser consolado. O bebê Mario, assim como minha sobrinha, tem muita bochecha e um queixo pequeno e usa fraldas. Minha sobrinha tem um jeito de cerrar o queixo no peito que intensifica a proporção bochecha/rosto, deixando ela com uma papinha, como se ela tivesse dois queixos. Minha sobrinha usa inúmeras fraldas num dia, como nós usamos nossos pensamentos e sentimentos. Será que o Yoshi precisa trocar a fralda do Mario entre uma fase e outra? Durante essa jornada épica, que leva 6 mundos de 8 fases cada (48 fases engenhosas e criativas!), eu acho impossível que esse neném, independentemente dele ser um futuro grande herói e já ter vindo da cegonha com um icônico boné vermelho, não ter sujado uma fralda sequer.

Os chefões de jogos tradicionais do Mario também são meio tanto faz. Os chefões desse jogo estão entre os melhores que a Nintendo já fez.

Ás vezes, na vida adulta, um torpor nos desanima, acaba com a vontade de fazer as coisas, dá razão para nossas inseguranças, nos coloca em dúvida. Ficamos chuvosos por dentro.

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Há formas bem destrutivas de exigir acalanto quando somos adultos e criamos vergonha de chorar. As crianças que fomos deixam marcas em quem somos, como a mais leve patas de gato ou passarinho marcam inevitavelmente o cimento fresco.

A primeira vez que zerei Yoshi’s Island levou um fim de semana, e eu tinha alugado a fita. Eu não tenho certeza em qual das duas locadoras que frequentava eu aluguei esse jogo. A memória da infância é distorcida pelo lembrar. Dentro dessa incerteza, só posso testemunhar dizendo: eu fui essa criança, e eu gostava muito dela, e ela deixou essa marca, mas eu perdi muito de quem ela foi.

Eu sou tio há pouco mais de um mês, e recomendo Yoshi’s Island para todo mundo que tem interesse num bom videogame, e não endureceu demais pra sentir falta das crianças que perdemos. É uma obra-prima de jogo que envelheceu muito bem pra sua época. É tão bom, que originou uma franquia inteira, e nenhum jogo fez jus ao original, pois são todos legaizinhos, e esse é eterno, como são todas as crianças de dentro.

onheça o autor da nossa coluna “Impressões digitais”

Kelvin Matheus Rosa é graduado em Letras pela UFSJ e atualmente está no Programa de Mestrado em Letras (PROMEL) da mesma instituição, na linha de Pesquisa Literatura e Memória Cultural. Lançou em 2020 o livro Libélula 44 em formato fanzine, no Museu Municipal de Varginha. Performou poesia em São João del-Rei e Tiradentes em 2019, no Inverno Cultural da UFSJ e Festival Artes Vertentes. Nasceu em 1996, ano de lançamento do Nintendo 64 e do caso do ET. Divide aniversário com Oscar Wilde.

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