
Victor H. Azevedo é de minha faixa etária, mas sinto que escreve como se tivesse o fizesse há uns 20 anos a mais que eu. Não digo isso de graça. Você sente no corte do verso. E JBG é um livro estranho. Por isso resolvi falar dele.
O que o autor propõe é uma poética que nasce de pesquisa obsessiva em torno do mesmo tema: o excêntrico poeta José Bezerra Gomes, que viveu em Natal, cidade também de Victor. Partindo de fragmentos de 6 décadas de jornais, além de trechos de alguns escritos desse autor, Victor consegue, na arte do corte, escavar poemas. A proposta arbitrária não é limitadora de forma alguma. Por meio dessas apropriações, temos retratos fascinantes que resgatam uma figura até então esquecida. Há humor, melancolia, lirismo convencional, solidão, e até algumas aparições especiais de Drummond (amigo pessoal de Bezerra Gomes, segundo o mesmo) e Guimarães Rosa, contra quem o poeta natalense concorreu quixotescamente pelo posto de uma cadeira da Academia Brasileira de Letras, perdendo sem ao menos um voto.
Paira nos retratos de JBG a solidão de um solteirão que morou com a mãe a vida toda, morrendo antes dela. Os poemas seguem após a morte de Bezerra Gomes, quase numa meditação sobre o que se deixa após o fim, e destaco um comovente poema sobre uma menininha que causou um incêndio acidental, que pôs abaixo a casa da família enquanto o pai se ausentava, viajando a trabalho. O irmão da menina dá seu depoimento no jornal, tendo ele, por coincidência, o nome de José Bezerra Gomes.
Além dos recortes, há outras duas seções no livro: uma, curtinha, compõe em cima do livro Antologia Poética de JBG alguns experimentos formais. Outra, por meio de uma prosa precisa, apresenta 71 curtos trechos de curiosidades que não couberam nos poemas de recortes. Esses trechos não caem em enciclopedismo ou trivia em momento algum, e funcionam como poemas a sua própria maneira, dentro da precisão de corte que já guia o livro todo, em conjunto da obsessão que já falei.
Ler JBG me instiga a experimentar. O que o autor conseguiu aqui dá um empurrãozinho expansivo nas fronteiras da escrita e seus modos de pensá-la. O feito do livro é ser uma proposta concentrada em sua totalidade, quando tantos livros de poesia podem parecer um junção descuidada do que quem escreveu já tinha pronto. Você aprende sobre o Bezerra Gomes, porque Victor te deixa tão instigado quanto o próprio deve ter ficado quando assumiu essa empreitada. Isso ocorre porque a poética é afiada. Há suor impregnado entre cada verso e em cada fato catalogado e experimentado. Quantas variações? Quantas ideias testadas foram abandonadas, entre a maré de dados sobre o ainda obscuro Bezerra Gomes, até que um livro tão bem-acabado fosse teimosamente concluído, sem trair a proposta?
Não tenho autoridade para afirmar que Victor H. Azevedo é um dos maiores nomes das letras brasileiras em minha geração, mas o faço sem medo. Aposto isso num fato singelo: a generosidade de Victor. Temos nesse livro um nerd muito entusiasmado, fazendo tudo que pode para mostrar o que o fascina nesse conterrâneo. Diga-se de passagem, fica no ar pelo livro a questão do quanto José Bezerra Gomes seria de fato um poeta tão bom assim, ou o quanto o autor gosta dos escritos dele. E isso não importa. O exercício de compreender e resgatar essa figura elusiva já se basta. Parte do labor é a empatia. É como no conceito de história de Walter Benjamin, resgatando e preservando os derrotados, postulando o que poderia ter sido, mas que não foi.
E a generosidade de Victor é recorrente na marca que ele já deixou na literatura brasileira. JBG é seu quarto livro, com o quinto recém-lançado. Além da própria escrita, Victor H. Azevedo coordena, junto de Ayrton A. Badriah, a editora independente Munganga, que traduz, edita e publica de forma caseira muitos poetas de qualidade esquecidos pelo grande público e mercado. Por meio deles, conheci José Luis Hidalgo, Martín Rangel e Ronald de Carvalho, além de outros.
Recomendo JBG a quem tenha interesse em poesia contemporânea e literatura enquanto técnica. O livro já alugou um apartamento na minha cabeça por sua autenticidade. Existem autores admirados por muitos leitores. Existem autores mais admirados por outros autores. Espero que Victor encontre os tais muitos leitores que eu também almejo, pois já o considero ele indispensável.
Conheça o autor da nossa nova coluna “Impressões digitais”
Kelvin Matheus Rosa é graduado em Letras pela UFSJ e atualmente está no Programa de Mestrado em Letras (PROMEL) da mesma instituição, na linha de Pesquisa Literatura e Memória Cultural. Lançou em 2020 o livro Libélula 44 em formato fanzine, no Museu Municipal de Varginha. Performou poesia em São João del-Rei e Tiradentes em 2019, no Inverno Cultural da UFSJ e Festival Artes Vertentes. Nasceu em 1996, ano de lançamento do Nintendo 64 e do caso do ET. Divide aniversário com Oscar Wilde.




















