Desde os meus 6 anos, como paciente, tenho carinho para com as palavras e, hoje, como psicanalista, aprendi que elas portam histórias. Na linguística, o estudo da origem das palavras chama-se etimologia. Aproveito-me dela para buscar o nascedouro da palavra “morada”, que provém do Latim MORARI, significando, portanto, retardar-se, ficar e viver. Neste ano, a edição da “Casacor”, em São Paulo, teve como tema – “Corpo e Morada”, resgatando o lugar habitado e, às vezes, negligenciado face à invasão do trabalho. A partir desse evento, levanto a questão: há uma relação entre a casa (morada) e a psíquica do sujeito?
Andando pelas exposições e refletindo sobre as experiências clínicas, lembrei-me da arquiteta e estudante de psicanálise Shirlei Zonism, que escreveu o livro “Arquitetura no divã: a quarta dimensão do espaço” (Editora Olhares). Nele, a autora mostra esta tradução entre o interno do sujeito e a sua expressão na habitação do espaço. Relatando variados casos, descreve os conflitos psíquicos ou o funcionamento do sujeito a partir do andamento ou da falta dele em uma reforma ou construção. Aliás, não faltam exemplos de pessoas, cujas casas são verdadeiros canteiros de obras permanentes, que possuem organização rígida ou portam excessos de objetos. Isso coincide com os obstáculos colocados para não lidar com o próprio desejo.
O desejo, em Psicanálise, pode ser compreendido como movimento. Quando se deixa de se movimentar ou há a sua redução, o corpo biológico pode padecer com dores e mal-estar. Um amigo personal conta o quanto a falta de movimento, especialmente, em pessoas com mais idade, pode produzir um definhamento da marcha até a pessoa não conseguir mais se locomover.
A mesma analogia pode ser feita sobre o universo psíquico. Para quem quiser ver isso pela lupa da neurociência, foi publicado na revista científica “Nature” o trabalho intitulado “A somato-cognitive action network alternates with effector regions in motor cortex”. Nele, os autores mostram, o que em Psicanálise já se sabe há alguns séculos, que o movimento é o que produz um sujeito, e a falta dele, o adoecimento psíquico. O cérebro, hoje se sabe disso, porta uma plasticidade, semelhante à dos músculos. Deduz-se, logo, que, ao se permanecer fixado e repetindo um único modo de fazer, ocorre o adoecimento psíquico.
Voltando ao lugar e à arte da estrutura, a arquitetura. Nela, projeta-se uma casa ou um espaço inserindo a arte, portanto, a criação. Para criar, é preciso conhecer a natureza do material e, algumas vezes, fazer isso implica experimentar as bordas e os limites. Essa atitude exige romper o ritmo estabelecido e produzir questões de modo a provocar as certezas encontradas nas respostas dadas.
O psicanalista francês, Jacques Lacan, afirma, em alguns momentos de seu ensino, que o inconsciente é topológico. A topologia é um ramo da matemática, que trabalha com a noção de tempo e de espaço. Ela segue outro paradigma, diferente do euclidiano, que habitualmente se estuda na escola. Sem entrar nos pormenores, o que interessa é a aproximação entre a estrutura de um espaço físico e a do funcionamento psíquico.
Acostumou-se a pensar a partir da lógica binária: certo ou errado; noite ou dia; bonito ou feio, entretanto isso não se sustenta. A Psicanálise demonstra que o ser humano é complexo e que, não raras vezes, trata-se de um lado e de outro, ao mesmo tempo. A figura topológica, banda de Moebius, demonstra a indistinção do dentro e fora, em outras palavras, a morada externa como espelho da interna. Portanto, a advertência, ao persistirem os impasses na construção ou na reforma de sua casa ou com a arquiteta ou com o arquiteto, consulte o psicanalista. Às vezes, o movimento e a construção necessários a serem feitos se encontrarão a partir da consideração de outro lugar.
Janilton Gabriel de Souza
Psicólogo e Psicanalista. Mestre em Psicologia pela UFSJ. Professor Universitário e Supervisor Clínico no Grupo Unis. Pesquisador no IIP e Grupo Unis. Membro fundador do Interfaces em Psicanálise. Organizador de Revista Científica de Psicanálise. Professor e Coordenador da Pós em Topologia e Psicanálise – um novo paradigma para clínica no século XXI. Colunista no Blog do Madeira e Jornal Folha de Varginha.

Jornalista profissional (formado em Comunicação Social e Direito), radialista e cerimonialista. Escreve sobre política desde 1993. Fundador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Servidor municipal. Comendador do Mérito Legislativo de Minas Gerais. Diretor de Comunicação da ACIV (Associação Comercial de Varginha) e vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas de Varginha). Foi membro da Academia Varginhense de Letras. Diretor da Abraço e do Voluntariado Vida Viva. Comentarista político da Rádio Clube de Varginha (99,3 FM). Organizador do livro “Narrativas de Nico Vidal”. Autor do livro “Causos da Política (acontecidos em Varginha)”. Apresenta o Blog ao Vivo e o Podcast Varginha em 1 minuto ou mais. Cozinha pra família nos finais de semana (às vezes fica bom). Cruzeirense.


























