Matéria publicada originalmente em maio de 2022.
Depois de dirigir cinco minutos por uma estrada de terra, me aproximo do prédio. Buzino.
Um homem de 39 anos faz a saudação (“Bom dia, doutor”). Se levanta da guarita, confirma minha identidade e tira um chaveiro do bolso. Abre o cadeado e o portão que dá acesso ao pátio.
O homem que me permitiu ter acesso à APAC de Varginha cumpre 20 anos de cadeia. É ele o responsável por permitir a entrada de visitantes no prédio da APAC de varginha.
APAC é Associação de Proteção e Assistência aos Condenados. É um método alternativo de ressocialização de presos. Que, ao entrarem no prédio, passam a ser chamados de recuperandos.

Um presídio cuidado pelos próprios detentos
O prédio é simples: uma ala administrativa, celas, refeitório e oficinas.
Todos os cadeados são abertos e fechados pelos próprios internos.
A segurança é feita sem armas — apenas um funcionário do Estado supervisiona o local.
Além dele, há um encarregado geral e duas funcionárias: uma cuida da parte administrativa e a outra da cozinha, figura respeitada entre os 39 recuperandos.
“Todo mundo me respeita, pergunta se pode entrar e o que pode fazer para ajudar”, conta a cozinheira.
Ela prepara as refeições diárias para os presos, funcionários e visitantes.

Disciplina, trabalho e fé
O dia começa às 6h. Às 7h, a leitura da Bíblia marca o despertar.
Às 8h, cada recuperando segue para sua tarefa: cozinha, obras, manutenção, artesanato ou estudo.
Nos primeiros três meses, os novos internos passam pela laborterapia, onde aprendem ofícios e produzem tapetes e esculturas.
A cada três dias de trabalho, eles ganham um dia de remissão da pena.
Atualmente, a APAC de Varginha passa por ampliação, com mão de obra dos próprios recuperandos e apoio do Governo de Minas.
Um sistema baseado em confiança
Durante a visita, o presidente da unidade, João Paulo Figueiredo Martins, e o encarregado Anderson Ferreira explicam o funcionamento do método.
As regras são claras: disciplina, trabalho e espiritualidade.
“Nos presídios, a reincidência passa de 90%. Aqui, é de cerca de 15%”, diz Anderson.
Esses números são confirmados em outras unidades da APAC pelo país.
Incentivo, mérito e convivência
O sistema de convivência é regido por pontuação.
Quem mantém a cela organizada ganha prêmios. Quem desrespeita regras, perde pontos e pode ser transferido de volta ao presídio comum — com acréscimo de até dois anos na pena.
“A gente não quer voltar pra lá pra cima. Lá é um inferno”, confessa “João”, um dos recuperandos.
As celas abrigam seis presos, cada um com sua cama e pertences organizados.
No presídio comum, o mesmo espaço é ocupado por 25 detentos.
Humanização e dignidade
Um dos diferenciais mais valorizados é o tratamento humanizado nas visitas.
Nada de revistas vexatórias: as inspeções são feitas com detectores de metal.
“Aqui nossos familiares são respeitados. A gente obedece as regras, não tem arma e não tem humilhação”, conta um dos internos.

Uma visita ao interior da APAC Varginha

As atividades vão até 22h, quando todos vão para as celas dormir. A partir daí é proibido assistir à TV (por sinal, há um aparelho no complexo). A exceção é dia de futebol.

Continuando a visita, chegamos às celas. Cada uma tem seis beliches de alvenaria e um banheiro (sem gato no chuveiro).

Os pertences dos recuperandos ficam logo na entrada da cela. Tudo na ordem.
“Quem estiver com a cela mais organizada, ganha um prêmio. A pior, ganha um porquinho”, conta João.
O Porquinho está ao lado do troféu de Pai do Ano. Apoio da família é um dos pontos do método APAC
O sistema de pontuação é sério. Quando um recuperando sofre uma penalidade, ela é registrada no quadro. Se houver infração séria, como agressão, ele pode voltar para o presídio. Nesse caso, além de perder os dias de remissão, ainda tem dois anos acrescentados à pena.
Almoçamos na APAC. Arroz, feijão, linguiça e quiabo. De sobremesa, doce de abóbora com coco que a esposa do pastor fez e mandou para os recuperandos. Comida boa. Dá vontade de cochilar. Mas preciso voltar para escrever este texto. E os recuperandos voltam para as tarefas.
O sistema funciona?
A história parece muito surreal para ser verdade.
E é a principal dúvida do jornalista. O encarregado da unidade, Anderson Ferreira responde na hora: “Nos presídios, a chance de reincidência é de mais de 90%. Aqui, estatisticamente, é de 15%” (depois pesquisei na internet e os números foram confirmados nas outras unidades da APAC).
Pergunto se algum recuperando de Varginha já cumpriu pena.
O presidente da APAC conta que já. “E saiu empregado. Da mesma forma, temos recuperandos aqui que, quando saírem, já terão emprego garantido. A empreiteira que realiza a ampliação do prédio está de olho neles, são bons pedreiros e pintores”.
Além dos questionamentos sobre o método, há um benefício para o sistema carcerário: a APAC diminui a quantidade de detentos no presídio. Construído no começo da década de 90 para cem detentos, o presídio de Varginha abriga mais de 250. Mesmo com as ampliações realizadas no decorrer dos anos, é muita gente.
Comparando: cada cela da APAC abriga 6 presos. É uma sala com aproximadamente 3 x 5 metros, onde cada recuperando tem sua cama.

No presídio a mesma cela é usada por 25 detentos.
A partir daí a gente começa a entender a preferência dos detentos pelo método de ressocialização.
Pergunto ao João o que aconteceria se ele tivesse que voltar para o presídio: “Eu não aceitaria não, aqui a gente obedece as regras, não tem arma, a vistoria das visitas é humanizada, nossos familiares não passam pelo constrangimento de tirar a roupa, ficar agachado e tossir”.
A vistoria na APAC é feita com detectores de metais.
O orgulho de abrir e fechar o portão
Ao sair, o porteiro — aquele mesmo que abriu o portão no início — despede-se com um sorriso calmo.
Descubro: ele sente orgulho por ter sido designado pelo juiz para controlar a entrada da APAC.
Na cadeia sem guardas, o que mantém o portão fechado não é o cadeado.
É o comprometimento com uma segunda chance.
Serviço
Local: APAC de Varginha – Estrada Municipal CVR 468, Miguel de Luca, zona rural
Contato: (35) 99938-9132
Mais informações: www.fbac.org.br

Jornalista profissional (formado em Comunicação Social e Direito), radialista e cerimonialista. Escreve sobre política desde 1993. Fundador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Servidor municipal. Comendador do Mérito Legislativo de Minas Gerais. Diretor de Comunicação da ACIV (Associação Comercial de Varginha) e vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas de Varginha). Foi membro da Academia Varginhense de Letras. Diretor da Abraço e do Voluntariado Vida Viva. Comentarista político da Rádio Clube de Varginha (99,3 FM). Organizador do livro “Narrativas de Nico Vidal”. Autor do livro “Causos da Política (acontecidos em Varginha)”. Apresenta o Blog ao Vivo e o Podcast Varginha em 1 minuto ou mais. Cozinha pra família nos finais de semana (às vezes fica bom). Cruzeirense.





























Uma resposta
Não tinha conhecimento desse método, tampouco aqui em Varginha. Às vezes passo na estrada de terra citada no início e vejo a APAC lá no alto, mas não tinha conhecimento que havia recuperandos lá. Parabéns pela excelente matéria!