Janilton Gabriel de Souza*
É com prazer que redijo essas palavras no início de um novo ano. A vocês, leitores, muito bom revê-los nestas linhas. Os últimos meses foram de uma pequena pausa, depois de mais de 10 anos de colaboração. Neste tempo, o Blog do Madeira ficou de cara nova e minha contribuição ganhou a nomeação de uma coluna: “Psicanálise e Cultura”.
Esse nome prenuncia a maneira da construção deste autor e a sua nomeação a indicação de como a Psicanálise trabalha, a partir do rigor do uso das palavras. Afinal, é com elas que se criam frases e textos cômicos ou trágicos, por exemplo. O lugar ou posição que cada sujeito ocupa em sua própria fantasia determina as suas reações e seu modo de sofrer, inclusive. O psicanalista italiano Contardo Calligaris, criador da série Psi da HBO, soube explorar no episódio “Desejos cortados” a ideia freudiana e lacaniana de que sofremos não pelas emoções, mas da própria narrativa construída. O jeito de montá-la implica em reaver seus elementos, personagens e a posição ou papel do sujeito na trama. Como em um livro ou filme, cada detalhe conta e corrobora para leitura de um todo.
Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, em “A interpretação do Sonhos” (1900), mostra que a leitura de um sonho deve ser feita considerando cada elemento, assim como se faz na interpretação de uma fala. Adverte que no Inconsciente não há negação e nem adjetivos, sendo tais características atributos da consciência. Além disso, no Inconsciente não há conflito e algo que as pessoas se perguntam se isso “ou” aquilo, normalmente, pode ser tomado como isso “e” aquilo. Em outras palavras, uma ideia pode pertencer a dois conjuntos ou sistemas. O psicanalista francês Lacan propôs a noção matemática da banda de Moebius para demonstrar que o que é apontado ao externo habita, ao mesmo tempo, o interno – dentro “e” fora. Nos sonhos ou na fala, tais elementos podem estar condensados ou deslocados para diversas figuras, como ocorre na Metáfora e na Metonímia, a primeira ideia trabalhada Freud e a segunda por Lacan.
Por esses recursos linguísticos o psicanalista se interessa, pois falar não implica, necessariamente, dizer. Pode se dar voltas para não expressar nada de si, ao contrário, se defender de não enunciar suas falhas. Um modo de fazer isso é negar a própria divisão subjetiva através de discursos tramados para esconder as faltas a partir de classificações adjetivas de bem ou mal, por exemplo. O “bem” ao lado do sujeito e o mal expulso ao território do outro.
Nesta coluna pretendo seguir cultivando as sementes das múltiplas vivências, leituras, mantendo o espaço aberto às questões da nossa época e aos comentários. O psicanalista acostumado à solitude do consultório, ao resolver apossar de um ambiente público, deve criar um espaço onde as questões melhores sejam avaliadas ou, tal como se faz em um tratamento psicanalítico – buscar a suspensão das conclusões, certezas e promover a abertura à análise das partes e seus conjuntos.
Os veículos de comunicação descrevem que seus colunistas têm opiniões que não, necessariamente, coincidem com o seu editorial e os dados apresentados são de sua responsabilidade. A palavra “responsabilidade” em seu sentido etimológico designa a forma como alguém responde por algo. É assumindo a maneira de responder a esse espaço, a de construir aberturas às questões e alguns ensaios de respostas, que seguirei na dialética, ou em melhor forma na dial-Ética. É para ser um exercício da ética do bem dizer, que consiste em dar voz às luzes “e” às sombras, ao mesmo tempo. Textos de abertura ao diálogo, ao equívoco e à contradição. Uma operação lógica – tradução do Inconsciente.
É um modo de dizer, enquanto autor, das diversas camadas de entendimento de um fenômeno e suas versões, um exercício de “des-cobrimento”. Nessa viagem, pretende-se oferecer algumas palavras carreadas de ideias, que podem ser acrescidas, retiradas e até reconhecida a sua discordância mais à frente por este colunista. É para ser um ensaio no corpo do texto e com o corpo deste psicanalista, transcrito em palavras e na dedução de seu percurso. Uma amostra de tradução da flexibilidade, adquirida ao longo de um tratamento psicanalítico, que desvela o movimento, que espero se transmita na junção e disjunção dessas letras.
Janilton Gabriel de Souza
Psicólogo, psicanalista e mestre em Psicologia pela UFSJ, escreve sobre Psicanálise e cultura no Folha de Varginha e Blog do Madeira desde 2011. Atua como professor universitário do curso de Psicologia e coordenador da Pós-Graduação em Psicanálise do Grupo Unis-MG. Criador e coordenador do Interfaces em Psicanálise, Núcleo de Estudos e Pesquisas, além do NUPPS (Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e outros campos do saber). Editor do site Janilton Psicólogo. Dirige a editora Lěgěre, que publica títulos nacionais e internacionais. Aventureiro das páginas de livros, estradas, sabores, cinema, ritmos e encontros com pessoas, nutre afinidade pela pesquisa e escrita.





















