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“DESISTI DE OUVIR OU ESCUTAR”

  • 30/08/2024
  • 13:19
  • Colunas, COLUNISTAS, Psicanálise e Cultura
  • [email protected]

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  • Janilton Gabriel de Souza

Janilton Gabriel de Souza 

Psicólogo e Psicanalista. Mestre em Psicologia pela UFSJ. Professor Universitário e Supervisor Clínico no Grupo Unis. Criador e apresentador, juntamente, com Mônica Godoy do Podcast Psicanálise Conectada. Membro do Topolab (Laboratório de Pesquisa em Topologia e Psicanálise) do Instituto Internacional de Psicanálise (IIP). Pesquisador no Grupo Unis. Atende presencialmente e on-line em seu consultório particular. Organizador de Revista Científica de Psicanálise. Professor e Coordenador da Pós-graduação em Topologia e Psicanálise. Colunista no Blog do Madeira.  

 

A afirmação “desisti de ouvir ou escutar” pode parecer chocante, mas quero explicar por que ela não é tão importante quanto muitos psicanalistas ou psicólogos afirmam. 

 “Escutar” pode nos impossibilitar de captar o essencial do que é dito por um sujeito. A questão é por que atrelamos a leitura do inconsciente aos sentidos? Será que esses sentidos podem nos enganar? 

Escolhi exercer o trabalho de psicólogo, mas, em especial, de psicanalista por certa razão: sempre apreciei viajar, seja na ideia do deslocamento de territórios, seja no encontro com uma pessoa, pois esta possui algo de muito precioso para mim: a sua singularidade.

O psicanalista francês Jacques Lacan diz que é isso que nos torna únicos. Essa singularidade passa pela relação que temos com a linguagem e, a partir dela, de como cada um constrói a sua língua própria.

Posso utilizar o mesmo código, no caso o português, para escrever este texto, todavia isso não significa que falamos uma língua comum. Um exemplo que gosto de dar nas minhas aulas é a palavra ‘manga’. O que vem à sua mente quando  alguém pronuncia a palavra manga?

A manga da camisa ou a fruta ou a cidade mineira chamada Manga? Ou ainda outro sentido, que você atribui a essa palavra, que é seu, mas não tão coletivo. Os sentidos são absolutamente diferentes para cada pessoa, isso demonstra a riqueza de cada língua e de cada um de nós. Viajar nesses territórios linguísticos e descobrir essas construções, com texturas diferentes e únicas, sempre foi um grande prazer para mim. 

Leia Também:  A escuta do palhaço

Nos últimos meses, uma nova língua me tocou de maneira semelhante à de meu encontro com a Psicanálise: a língua brasileira de sinais, Libras. Por conta de minha companheira Jéssica Maciel e do Instituto Internacional de Psicanálise (IIP), venho convivendo com a comunidade não ouvinte e comecei a repensar nas “bobeiras” que afirmamos na comunidade “Psi”, de dizer da “escuta”. Paradigma que serve apenas para pessoas com acuidade auditiva, mas em nada reflete a essência da Psicanálise, ao menos a Psicanálise com a qual trabalho hoje em dia. 

Há outras experiências nas comunidades indígenas, em que mora uma riqueza de línguas e formas de nomear. Por atender pacientes em outros países, percebo o quanto o inconsciente pode se utilizar de outras línguas.

Há nomeações que só podem ser ditas pelo sujeito em espanhol, em inglês, em francês… O sujeito utiliza-se de certo código estrangeiro para dizer de uma relação de sua experiência e de sua estrangeiridade. Há algo que é captado no encontro com o estrangeiro, a emersão do sujeito do inconsciente, do seu jeito de fazer, de seu estilo.

Isto está além do significado da palavra, pois está no efeito e no movimento que ela produz. Ou seja, um movimento que circula, algo que escapa, que não pode ser dito. No fim, é isso: transmitimos o limite que é inalcançável, mas possível de se inventar. Há múltiplas invenções, no gesto dos sinais, nas palavras pronunciadas, no ritmo do toque, na gramatura do cheiro.

Qual captura dessas invenções é transmitida? Se isto é feito a partir de “um sentido”, como ouvir, será que “escutar” contribui para realimentar o sentido imaginativo a partir de nossa própria percepção? Se tomarmos essa referência como única, seguimos afirmando: “isso faz sentido”.

Leia Também:  A inteligência artificial e as teorias da conspiração que desinformam

Entretanto, nós, psicanalistas, não podemos atribuir significados, a partir de nossos sentidos (audição, visão, tato, olfato e paladar), e a partir de nosso imaginário de saber do outro, portanto de “compreendê-lo”.  

Na era em que tudo faz sentido, ou precisa fazer, principalmente pela gestão da atenção das plataformas digitais, surpreender-se com o que dele escapa pode ser uma experiência muito interessante e viva.

Além de ser a abertura para alguém que deseja saber e que não titubeia com os seus sentidos, mas que os questiona, permitindo adentrar na construção que o outro fez a partir de sua própria língua e da validação de sua experiência.  

A experiência como paciente na Psicanálise produz a capacidade de apreender que viver não tem sentidos últimos, mas provisórios. Não diz tudo e, exatamente por isso, permite insistir recriando experiências que não têm sentidos, todavia movimento, que inscreve uma diferença.

É o registro de Tiché,  ou seja, o encontro com o inesperado, que permite construir outra coisa com o que antes se camuflava o que variava. O sentido varia para cada um, de acordo com a sua “língua”. Estar aberto ao que se apresenta, querer saber, aventurar-se em como o saber do outro se formou, pode ser um caminho para interrogar nossos saberes e nossas respostas com excedente de sentidos.

Sem sentidos demais, a vida pode se fazer de forma mais leve e aberta ao que há para viver. Parece pouco e é, pois precisa ser; o essencial não reside no excesso, mas nas sutilezas, que revelam suas belezas, não vistas nem ouvidas… 

Victória Zanateli

Secretária da Argumento Jornalismo Ltda (BlogdoMadeira e Jornal Folha de Varginha). Estudante de Publicidade & Propaganda.

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Uma resposta

  1. Moisés disse:
    30 de agosto de 2024 às 2:12 pm

    Mais uma vez, grato por tais pérolas Mestre.

    Reply

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