Alguns podem adorar o palhaço, outros, odiá-lo e alguns, temê-lo. Há ainda os que tentam ser indiferentes às suas peripécias. O palhaço é uma figura antiga que data de 2.500 a.C ou até mais, isto é, da arte de fazer rir tem-se registro há 4000 anos. Essa figura icônica chama a atenção em seu fazer: a sua habilidade de escutar e seu interesse nas histórias locais. Sua representação e as reações diante dele revelam a relação de cada um com o desejo inconsciente. Então, leitor, tomarei meu nariz de palhaço – que precisa ser generoso – afinal meu nariz não tem delicadeza em sua forma – vou contigo tecer a partir do que passa ignorado, o palhaço e o inconsciente.
Em tempos em que o uniforme social, a moda, é o imperativo de uma imagem com filtros para tapar as imperfeições nas redes sociais, traduzindo e seduzindo a apresentação de uma estética atraente, o palhaço nunca foi tão necessário. Essa palavra tem sua origem no Italiano pagliaccio, de paglia, “palha”, que era utilizada para encher as suas roupas coloridas e torná-las mais alegres. Sob outro enfoque, um trabalho no traje para subverter a lógica de perfeição.
O trabalho do palhaço aponta para a complexidade humana, demonstrando que, apesar da mudança das formas, muitas vezes, as funções e certos funcionamentos se mantêm. A aparência engana, e o palhaço brinca com isso, como alguém que aprendeu a fazer graça da desgraça que assola as pessoas – da dificuldade de escutar e da indisponibilidade em saber. Freud, o pai da psicanálise, utilizou-se muito do chiste (Witz) para zombar de si e das realidades sombrias. O chiste é feito por metáforas e metonímias, que revelam uma verdade, a qual nem sempre se quer saber e tem, por este efeito, a produção do prazer, a partir do riso. Aline Viveiros de Castro, escritora e pesquisadora, no livro “O palhaço”, descreve, que esse personagem leva as pessoas a rirem até das “desgraças” e que “rimos do palhaço, com o palhaço, e rimos de nós mesmos fingindo que não sabemos que o palhaço é um espelho meio torto que reflete cada um de nós”.
Talvez, por isso as reações ao palhaço guardem as mesmas respostas com o inconsciente. Para um primeiro grupo, a ideia de ser indiferente a ele exige um esforço para construir uma “armadura” e “blindar-se” do que escapa à consciência. Já um segundo grupo nutre-se da relação de ódio, de negar e até de tentar matá-lo de várias formas. As pessoas criam meios para silenciar o desejo inconsciente. Há, ainda, um terceiro, cuja relação é via medo diante do que não se pode controlar ou do receio em deixar o lugar “conhecido” para aventurar-se em outro. Sustentar um desejo é sempre o convite à exploração e às descobertas. Todavia, essas respostas diante do inusitado são as que adoecem a pessoa ou que ela adoece outras ao seu redor. Ao contrário disso, o amor, não como aspecto narcísico, mas como caminho de cultivo ao saber e ao sabor das descobertas, talvez seja a resposta que se encontra em tratamento psicanalítico.
Por falar em descobertas, recentemente, ao ler a biografia de Selton Mello, descobri o seu livro anterior, “O palhaço”, criado a partir dos restos da produção do filme de 2011. Essa obra cinematográfica explora, com o personagem principal, a noção de identidade construída a partir da história de cada um. Selton diz, no livro, que sua ideia no filme era refletir sobre o lugar no mundo de uma pessoa a partir de suas escolhas e de seus conflitos. Sendo ainda o fazer do filme uma tradução do que é invisível em visível. Não seria, também, essa a função do palhaço? Tornar visível o que é invisibilizado? Não haveria, portanto, certa semelhança do palhaço e do psicanalista? Aquele revela no tecido social as verdades que ninguém quer saber, e este, a partir do encontro com cada sujeito e sua verdade – seu desejo. Em boas medidas, o espetáculo do palhaço e o tratamento psicanalítico têm um mesmo propósito – a diversão. Tomando esse vocábulo em sua etimologia latina, divertere significa “voltar-se em outra direção”. É, pois, como canta Marisa Monte em Portas: “Não importa qual / Não é tudo igual / Mas todas dão em algum lugar / E não tem que ser uma única. Todas servem pra sair ou para entrar / É melhor abrir para ventilar”.
Janilton Gabriel de Souza
Psicólogo e Psicanalista. Mestre em Psicologia pela UFSJ. Professor Universitário e Supervisor Clínico no Grupo Unis. Pesquisador no IIP e Grupo Unis. Atende presencialmente e on-line em seu consultório particular. Membro fundador do Interfaces em Psicanálise. Organizador de Revista Científica de Psicanálise. Professor e Coordenador da Pós-graduação em Topologia e Psicanálise. Colunista no Blog do Madeira.

Jornalista profissional (formado em Comunicação Social e Direito), radialista e cerimonialista. Escreve sobre política desde 1993. Fundador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Servidor municipal. Comendador do Mérito Legislativo de Minas Gerais. Diretor de Comunicação da ACIV (Associação Comercial de Varginha) e vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas de Varginha). Foi membro da Academia Varginhense de Letras. Diretor da Abraço e do Voluntariado Vida Viva. Comentarista político da Rádio Clube de Varginha (99,3 FM). Organizador do livro “Narrativas de Nico Vidal”. Autor do livro “Causos da Política (acontecidos em Varginha)”. Apresenta o Blog ao Vivo e o Podcast Varginha em 1 minuto ou mais. Cozinha pra família nos finais de semana (às vezes fica bom). Cruzeirense.

























