Todas as Manhãs do Mundo

#FlashbackFriday: A Sinfonia da Vida
Edição: Blog do Madeira

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Dentre vários filmes que abordam a música clássica, um me chama muito a atenção: o francês “Todas as manhãs do mundo” (Tous les matins du monde), do diretor Alain Corneau. Baseado no romance homônimo de Pascal Quignard, a película apresenta um especial elenco com Gerard Depardieu, Jean-Pierre Marielle, Anne Brochet e outros. A trilha sonora, conduzida pelo célebre Jordi Savall e que abrange o Barroco Francês, faz parte dos meus discos favoritos. Mas o que torna esse filme tão especial?

A dinâmica das cenas segue como quadros, exaltando as características claro/escuro tão pertinentes do barroco. A leitura de Corneau sobre os dois compositores abordados (que de fato existiram: Monsieur de Sainte Colombe e Marin Marais), ainda que às vezes romantizada, é bem interessante, nos conduzindo à seguinte indagação: qual o sentido em se fazer música? 

Marais, um jovem virtuose da viola da gamba (instrumento parecido com o violoncelo) procura o mestre Sainte Colombe para ter aulas. Sainte Colombe vive afastado das ribaltas, opondo-se ao que se praticava na corte (na época a França era governada pelo absolutismo de Luís XIV, o Rei Sol). A música para Sainte Colombe tinha uma função transcendental, comunicação sonora, e porque não espiritual com o Mistério. Corneau sugere que a esposa de Sainte Colombe faleceu enquanto ele tocava para um moribundo. Profundamente desolado por não estar com a amada nesse momento, busca se comunicar com ela através da música. Assim, a música adquire um significado pessoal, interiorização, sagrado. Já Marais procura exibir o virtuosismo na corte, buscando fama e riqueza. A música já muda de figura para esse personagem: é exibicionista, um ornamento para a corte, profana.

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Além de uma belíssima fotografia e trilha sonora, o filme demonstra uma sensibilidade comovente, como na parte em que Sainte Colombe conduz Marais ao atelier de um pintor, ensinando-o a perceber a música que sai dos seus pincéis. Ou quando o mestre indaga o que seria música para Marais. Insatisfeito com as respostas, diz o seguinte: “A música aí está para falar apenas daquilo de que a palavra não pode falar. Nesse sentido, ela não é completamente humana”.

Convido o leitor a assistir esse belíssimo filme.

Deixo, nessa coluna, um vídeo onde executo a música que aproxima Sainte Colombe à sua falecida esposa: “Les Pleurs” ( As lágrimas).

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