Sede – Luiz Gustavo

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A vida toda a Oliete sempre gostou daquele cremezinho leve que vinha na pizza e que costumava chamar de catupiri. Assim, simples, com “i”, como estava escrito no cardápio. Teve até uma vez — ela garante que não — em que, na pizzaria nova, o queijo cremoso era de verdade. E ela, sem saber, odiou, dizendo que aquilo devia estar estragado.

Depois, a internet veio mostrar tudo o que há de certo na vida e agora a Oliete é a primeira a acusar a maisena ali. O horror.

Coitado do milho. De novo ele. Ficava ali, quietinho, ajudando na leveza da cerveja de todo mundo. Mas o José Augusto agora não admite mais nada que não seja puro malte. O paladar teve que se virar pra acompanhar.

E a mãe do Lauro Alberto não se conforma. Passou vinte anos escutando que seu bifinho de carne moída era horroroso. Carne boa, tempero caseiro de verdade: horroroso, ele dizia. Agora o sabidão atravessa a cidade e paga caro pra comer um x-tudo com um bifinho de carne moída mal passado.
— A senhora não conhece, mãe. É gourmet.
Ela conhece. Só não diz mais nada.

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Mãe anda sem vez. A autoridade agora chega por outras influências.

Parecia exagero quando elas decidiam a hora do filho sentir frio. Hoje a Oliete não sai de casa sem o shampoo correto, o café exato, o celular da marca soberana — embora use só o WhatsApp, a rede social e o aplicativo do banco.

A bicicleta certa.
A dieta certa.
A opinião certa sobre o pateta errado.

Não é mais gosto. Nem preferência. Não é “eu gosto” ou “pra mim funciona”. Tudo é definitivo, definido. Nunca se falou tanto com tanta convicção. Ninguém mais parece escolher. Só confirmar o certo e o errado.

Então a mãe do Lauro Alberto já nem faz mais seu bifinho. O José Augusto tem ensinado o ponto certo de cozimento do brócolis. E a Oliete não esquece de tomar seus quatro e meio litros de água por dia.

E, se é verdade que só variedade absorve variedade, o mundo há de morrer lentamente de sede. Ainda que a água farte.


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Pequenas histórias de ficção que bem poderiam ser reais. Alguns trechos verídicos que parecem mentira. Um verdadeiro protesto pela resignação pura e simples. Ou o avesso disso tudo. Mire e veja com suas próprias conclusões.

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