Reminiscências da manhã

Acabou? Ainda não!
Vanilda Souza

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Meus olhos estão cansados; eivados de uma tristeza indescritível, pela angústia que se esgueirou no mais íntimo, conseguiu rasgar e atravessar a menina dos meus olhos. Saudades da minha terra. Das minhas origens sul mineiras, da minha infância e meninice. Chora, coração!

Remeto-me à infância ao acordar. Ah! a casa de meus avós, na Vargem dos Ilhéus. Que saudade! Tantos cheiros e afeto expressos nas atitudes destes fantasmas familiares que povoam minha mente. Vô Jorge me acordando, e a meus primos, para tirar leite das vacas e colocar sobre o Toddy na caneca de alumínio. Era pura gostosura de espuma! Escorregar de caixeta morro abaixo, andar a cavalo, livre pelos pastos verdes, subir nas jabuticabeiras frondosas e saborear as maiores frutas. Fecho os olhos e vejo vovó Joana fazendo o virado do capeta(ovo caipira, toucinho,queijo retirado na hora da forma e farinha de milho).

À tarde, apartar as vacas, separando os bezerros das mães para que dessem leite no dia seguinte. Era pura diversão! Até fazer coco no mato era divertido. À noite, tomar banho de bacia e sentar na taipa do fogão a lenha, em pequenos bancos de madeira, para ouvir vovô contar estórias de assombrações, mulas sem cabeça e almas penadas. Depois, corríamos para dividir os colchões de palha e travesseiros com flocos de algodão alvos como neve, com os quais, às vezes, estourávamos uns nos outros, por pura folia.

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Mais na adolescência, minhas primas e eu nos aprontávamos para os bailinhos(arrasta-pés) nas casas dos tios Zé, Alcídio, Joaquinzinho, entre outros, com tia Lourdes acompanhando. O Tião do Chico fazia os jovens sacudirem as cadeiras com sua sanfona e acordes. Os rapazes mascavam cravo pra chegar às damas com hálito mais fresco.

Aos 15 anos, tio Porfírio nos acordava às 3 da madrugada para ajudá-lo a conduzir pelas estradas, centenas de cabeças de boi, até alcançarmos a rodovia e fugirmos da fiscalização. Ele era um doido maravilhoso, pois foi o primeiro a estimular as sobrinhas a entrar num mercado estritamente masculino. Quanta ternura nos nossos encontros e peripécias!

No final das férias, voltávamos de mulas ou a cavalo até Cambuí, onde os animais ficavam na casa do tio Zico, na entrada da cidade, até que um camarada de vovô ou algum tio os levasse de volta à roça. Que pena, nossos filhos e crianças de hoje não vivenciarem o lúdico, o puro de nossas raízes, pois já cresceram em meio tecnologicamente avançado e virtual. Que pena não desfrutarem de tanto aconchego e tanta aventura! Bons tempos aqueles e personagens indeléveis continuam comigo até que se encerre esta minha jornada.

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Crônica do livro Pedaços de Minas e de sua Gente na Visão de uma Repórter

 

Vanilda Souza Marques

Jornalista e ambientalista

 

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