A história por trás de alguns rituais de réveillon

"Coluna Raízes Sagradas, assinada por Natanael Coelho."

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A passagem de ano, de forma praticamente unânime, carrega um forte simbolismo e alimenta nas pessoas sentimentos de renovação e esperança. Trata-se de um período marcado pela revisão de ações, pela reflexão sobre o ciclo que se encerra e pelo planejamento otimista dos passos que serão dados no ano que se inicia. Nesse contexto, rituais e práticas simbólicas ganham destaque como forma de potencializar desejos e intenções.

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No Brasil, são comuns tradições como vestir roupas brancas, estourar champanhe, pular sete ondas, montar mesas com frutas para a ceia e, em algumas regiões, realizar oferendas no mar. Popularizadas e incorporadas ao imaginário nacional, essas práticas fazem parte do repertório coletivo de celebrações de Ano Novo. Entretanto, poucos conhecem a origem desses costumes, hoje amplamente naturalizados na cultura brasileira.

Segundo o cientista da religião Alexandre Cumino (bacharel pela UNICLAR, médium e sacerdote de Umbanda), muitos desses rituais ganharam força a partir da década de 1950, durante a liderança religiosa de Tata Tancredo, quando foi instituída a tradicional Festa de Iemanjá, no Rio de Janeiro. Vestir branco, pular sete ondas, lançar rosas brancas ao mar e estourar champanhe eram inicialmente práticas vinculadas a um ritual umbandista de Ano Novo, em homenagem à divindade. A popularização foi tão ampla que a tradição ultrapassou barreiras religiosas e se consolidou como parte do folclore festivo nacional.

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A constatação, entretanto, provoca reações distintas. Especialistas afirmam que o desconhecimento sobre essas origens revela um distanciamento entre a sociedade brasileira e as matrizes culturais que formam sua identidade.

Embora práticas e símbolos de origem afro-brasileira estejam disseminados no cotidiano, as religiões que lhes deram origem ainda são, com frequência, alvo de preconceito, intolerância e ataques.

Esse cenário evidencia o paradoxo: elementos culturais derivados das religiões de matriz africana são amplamente celebrados, desde que desassociados de seus nomes, rostos e identidades. Ao longo do ano, rituais semelhantes aos praticados no Réveillon podem ser alvos de discriminação, reforçando desigualdades históricas e confirmando a urgência de debates sobre educação, respeito e liberdade religiosa.

Para 2026, a expectativa se estende para além dos votos individuais de saúde e prosperidade. Que o novo ciclo traga também um avanço na consciência coletiva, permitindo que expressões de fé — sejam elas quais forem — possam ocorrer sem medo, violência, intolerância ou julgamento

Natanael Coelho é dirigente espiritual da Tenda de Umbanda Caboclo Urubatã, em Varginha

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