Umbanda e o Sincretismo Religioso
Antes de entrarmos diretamente no contexto do sincretismo religioso que envolve a Umbanda, precisamos entender um pouco sobre a formação religiosa brasileira. O Brasil, um país laico, tem em seu território diversas manifestações religiosas, que derivam das chamadas Matrizes Religiosas. É possível identificar no Brasil quatro Matrizes Religiosas: a Matriz Oriental, a Matriz Ocidental (cristã), a Matriz Indígena e a Matriz Africana. A Umbanda possui Matriz Africana, ou seja, sua raiz religiosa está diretamente conectada à África e chegou ao Brasil através dos escravizados.
É muito comum entrarmos em terreiros de Umbanda e nos depararmos com o congá (altar) repleto de santos católicos. Se a Umbanda tem sua base religiosa derivada da Matriz Africana, então por que muitos terreiros ainda usam imagens católicas, derivadas da Matriz Ocidental, para manifestar a sua fé? A resposta está no sincretismo religioso. O sincretismo religioso é a fusão de elementos de diferentes culturas e tradições religiosas que dão origem a uma nova crença ou prática. No contexto umbandista, o sincretismo religioso, que trouxe elementos do catolicismo para dentro dos terreiros, teve um forte papel para o desenvolvimento da manifestação religiosa umbandista, que serviu diretamente como movimento de resistência.
Junto aos portugueses, durante o processo de colonização, veio também, de modo extremamente impositivo, a cultura católica, tendo a religião católica como dominante. Havia uma forte pressão para que todos, incluindo os escravizados, aderissem à religião dominante, muitas vezes de forma coercitiva e violenta.
Os escravizados que foram trazidos para o Brasil tentaram de muitas formas resistir à imposição religiosa e buscaram, de forma criativa, preservar suas crenças e práticas religiosas africanas. Através do sincretismo, conseguiam, por meio de uma analogia, manifestar sua fé sem sofrer com os cruéis castigos.
Dessa forma, começaram a observar elementos de similaridade entre determinados santos. Um dos casos mais conhecidos e populares é o sincretismo que envolve o Orixá Ogum, guerreiro por natureza, que representa a coragem, a força, a Lei e a Ordem, sincretizado com o santo católico São Jorge. Foi através do sincretismo que a fé africana, trazida pelos escravizados, resistiu e se perpetuou, sobrevivendo aos ataques políticos, sociais, racistas e intolerantes.
É indiscutível que o sincretismo religioso teve importante papel. Porém, hoje a Umbanda não precisa mais desse artifício para ter seus rituais e processos religiosos manifestados e praticados de forma livre e segura. A cultura religiosa que advém da Matriz Africana possui elementos, manifestações e imagens próprias, riquíssimas em detalhes e culturas que se bastam, sem a necessidade de complementos para provar seu valor social, cultural e religioso.
O cenário atual exige um processo de desincretização, no qual a imagem dos Orixás e suas manifestações possam ser valorizadas, com orgulho e sem medo da intolerância religiosa. O sincretismo teve, sim, seu papel importante na história da Umbanda, principalmente como forma de resistência. No entanto, não podemos permitir que o sincretismo se torne sinônimo de comodismo dentro dos terreiros.
Natanael Coelho é dirigente espiritual da Tenda de Umbanda Caboclo Urubatã, em Varginha
Veja também

Jornalista profissional (formado em Comunicação Social e Direito), radialista e cerimonialista. Escreve sobre política desde 1993. Fundador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Servidor municipal. Comendador do Mérito Legislativo de Minas Gerais. Diretor de Comunicação da ACIV (Associação Comercial de Varginha) e vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas de Varginha). Foi membro da Academia Varginhense de Letras. Diretor da Abraço e do Voluntariado Vida Viva. Comentarista político da Rádio Clube de Varginha (99,3 FM). Organizador do livro “Narrativas de Nico Vidal”. Autor do livro “Causos da Política (acontecidos em Varginha)”. Apresenta o Blog ao Vivo e o Podcast Varginha em 1 minuto ou mais. Cozinha pra família nos finais de semana (às vezes fica bom). Cruzeirense.




























