Não é particular

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Tem interesses que não se misturam. Ou pelo menos não deveriam.

E, antes que a prosa se desvirtue para “mas e os desvios de dinheiro?”, vamos deixar claro que isso é crime e deve ser tratado como tal. Não como normal. Envolvidos deveriam ir para a cadeia, devolver o dinheiro e etc. Mas a conversa aqui é outra.

Dentro da legalidade – imaginável – tem interesses que andam por vias diferentes.

O serviço público – seja saúde, educação, segurança – procura prestar o melhor serviço possível porque tem eleição de quatro em quatro anos e é preciso ter o que mostrar. O serviço privado procura prestar um bom serviço porque, na outra esquina, tem um concorrente e é preciso pagar as contas. Parecem caminhos parecidos, mas a realidade fica diferente quando eles se juntam.

O serviço público não trabalha com lucro. Secretarias de saúde, educação ou quaisquer outras trabalham para prestar serviço. E isso custa dinheiro. É justamente o que faz os impostos que a gente paga fazerem sentido. Nesse processo, economias de materiais ou de procedimentos se justificam para atender o maior número possível de pessoas pelo melhor custo possível.

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Agora, quando o poder público, diante da demanda, busca o setor privado para realizar esse serviço, a situação muda de figura.

Claro, há uma licitação no caminho, que tenta assegurar alguns parâmetros de qualidade, e não apenas preço. Mas, depois desse processo, o que temos é uma empresa privada fazendo um serviço público.

Traduzo: uma entidade que visa o lucro fazendo um serviço que, durante a vigência do contrato, não encontra concorrência.

(Você já viu uma consultoria empresarial? Lá a conversa é mais ou menos assim: “vamos te ensinar a ter todo o lucro possível”. Percebe o perigo?)

Mas, se houve licitação, como a empresa vai conseguir aumentar o lucro? Ora, simplesmente reduzindo custos. O máximo possível. Ou ao mínimo aceitável.

Se, por um lado, o poder público precisa apresentar algum resultado porque tem eleições de quatro em quatro anos, por outro, uma empresa que ganhou a licitação passa a ter um contrato garantido e pode atuar sem a pressão diária de um concorrente disputando o mesmo cliente.

Mas isso não é o pior.

O cidadão que chega a uma pomposa clínica particular munido de sua carteirinha do SUS tem outros desafios, além de sentar só na pontinha da cadeira. Da secretária à mesa do doutor, o atendimento muitas vezes parece personalizado para quem “não está pagando”.

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Não perdi tempo pesquisando quanto o SUS paga a uma clínica particular por consulta ou procedimento, mas será que é tão diferente de um plano de saúde. Por filantropia, com certeza, eles não estão trabalhando. E, para dizer a verdade, nem é esse o ponto. O que me chama atenção é outra coisa.

Por que fazem tanta questão de deixar claro que há uma distinção ali? É como se estivessem nos fazendo um favor.

Quem já precisou sabe do que estou falando.


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