A moradora daquela tranquila cidade do interior passava diariamente, assim que encerrava seu expediente, em frente à Igreja Matriz. Assim como ela, toda comunidade ouvia diariamente, às 18 horas, através dos alto – falantes, aquela bela melodia.
Alguns anos depois, seu coração palpitava. Ela estava na mesma Igreja. O vestido branco revelava o momento da celebração do seu matrimônio. A música executada durante a benção das alianças (e que fez todos presentes se emocionarem), foi a mesma que ecoava todos os dias pelo alto-falante da citada Igreja.
A música em questão era “Ave Maria”, de Franz Schubert. Dentre vários compositores que homenagearam a mãe de Jesus, as mais famosas são de Gounod, Somma e Schubert. A sonoridade de tais músicas nos convida ao clima de contemplação e reflexão, possibilitando também o despertar de emoções…
Franz Schubert (1797 – 1828), assim como vários artistas da música popular, morreu muito novo. Assim como vários artistas da música popular, também compôs canções. E foram muitas, mais de 600. Ele é a pedra fundamental para o estabelecimento de um tipo de composição, típico do período classificado como Romantismo, chamado “Lied”. Esse período transcorreu durante o século XIX e, entre outros, valorizava a emoção, o sentimentalismo, a angústia; a arte seria o reflexo da identidade de cada autor.
Schubert nasceu em Liechtental, subúrbio de Viena, no começo desse movimento. O jovem, seguindo os passos do pai, formou-se professor e chegou a lecionar; porém declinou em prol da música. Famosas eram as Schubertíades, noites regadas a vinho, dança e muita música. Nesses encontros, o pequeno “cogumelo” (como era seu apelido), sentava ao piano e acompanhava vários cantores nos descritos lieder (plural de Lied).
Para entendermos um pouco a facilidade e alto parâmetro dessas canções, o crítico e excelente músico Schumann disse: “o que para os outros é um diário, para Schubert era papel pautado, ao qual confiava todos seus estados de ânimo. Sua alma totalmente musical escreve notas onde os demais utilizam palavras”.
Schubert elevou o Lied a outro patamar pois, além de escrever música sobre textos de Goethe, Heine e outros grandes escritores da época, conferiu uma posição de destaque ao piano, anteriormente tratado apenas como um acompanhante do canto. São vários casos onde o piano ilustra musicalmente o texto que está sendo cantado. Deixo como exemplo o impressionante “Erlogkönig” (O rei Elfo) para que vocês tenham uma ideia da genialidade desse grande compositor.
Percebam que a curta canção contém 4 personagens: narrador, pai, filho e o Rei Elfo. Percebam como o cantor (o excelente Dietrich Fischer-Dieskau, acompanhado por Gerald Moore ao piano) entoa de maneira diferente cada personagem!
Segue um guia para a audição!
- 0:00 introdução de piano: o ritmo faz alusão ao galope de um cavalo.
- 0:25: Narrador: Quem cavalga tão tarde durante a noite tão selvagem? Um pai amoroso com seu filho. Ele aperta seu filho com o braço, segura-o com força e o mantém aquecido.
- 0: 56: Pai: meu filho, o que te faz esconder a cara de medo?
- 1:04: Filho: Pai você não vê o rei elfo? o rei elfo com corvo e mortalha?
- 1:20: – a música está em tons calmos – Pai: Meu filho, são apenas alguns fios de névoa.
- 1:30: – aqui há uma sensível mudança no caráter da música, com melodia sedutora – Rei Elfo: Querida criança, venha comigo! Vou jogar alguns jogos muito bons com você; onde flores variadas estão nos prados, e minha mãe tem roupas douradas para vestir.
- 1:52: – agitação crescente, representada pela voz do filho – Filho: Meu pai, meu pai, você não ouve como o elfo sussurra promessas em meu ouvido?
- 2:04: – no grave, passando a impressão de calma – Pai: Fique calmo, fique calmo, meu filho, através das folhas murchas o vento sopra forte.
- 2:14: – com alegria, o piano muda o caráter, o Elfo ainda investe sobre a criança – Rei Elfo: Meu belo rapaz, você vem comigo? minhas lindas filhas esperam por você, com elas você se juntaria à dança todas as noites, e elas vão balançar e dançar e cantar para você dormir.
- 2:30: – música mais intensa, sugerindo pânico – Filho: meu pai, meu pai, você não está vendo todas as filhas elfas ali no crepúsculo?
- 2:43: – registro grave, embora o pai demonstre menos calma que antes – Pai: Meu filho, meu filho, a forma que você vê aí, é apenas o velho salgueiro cinza.
- 3:00: – a música começa sedutora, mas depois o Elfo começa a assustar – Rei Elfo: Estou encantado com sua bela aparência; e se você não quiser, vou prendê-lo à força!
- 3:09: – crises, desespero – Filho: Meu pai, agora ele me pegou, o elfo me fez alguma coisa de ruim.
- 3:23: – Narrador: O pai estremece, ele cavalga impetuosamente, segurando a criança que geme em seus braços. Ele chega à estalagem com labuta e pavor
- 3:41: o piano desacelera e para, enquanto o narrador recita: mas em seus braços, seu filho estava morto!























