Olha-se no espelho. Os anos passaram, tão rápido! Nada daquela boca carnuda, intensa. O pescoço, valha-me! Desce ansiosa para o corpo. Meu estômago? Caralho, é meu, mesmo? Será ele o pior de mim? Protuberante, chegadinho à barriga, como a aconhechegá-la. Será o pior de mim?
O olhar desce, como a perscrutar cada pedacinho da pele. Aqui, ali, mais ali, com o olho esquerdo sempre perspicaz, mais que o direito-longe de mim qualquer analogia com a política. Sinto o olho acanhado. E até sinto pena dele. Olhar assombrado, não com a protuberância da barriga, mas com um morro, relevo, quem sabe planície. Mas morro?
E pergunta-se, num assombro instantâneo: cadê as partes íntimas? Conjecturo terem se escondido, envergonhadas sob esse morrinho de gordura. Mas, nesta viagem fisionômica, ela pula. Teve um sobressalto. Gritou, num questionamento de dar pena: esta sou eu? E esta barriga, peitos e pernas semi-enrugadas? Inopidamente teve um lampejo.
Perturbada com tamanho questionamento, voltou a si. Olhou-se no espelho, acariciou suas rugas e pés de galinha-acho até que de patas, tão grandes eram-,suspirou e disse ao espelho: esta sou eu, e como é bom ser o que sou. Como dizia Fernando Pessoa, tantos eus que me habitam. Cada um de uma forma, de um temperamento e de tantos sentimentos! Vou mais além com Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena.
Conclui: cheguei até aqui após tantas batalhas, e sonhos; alguns realizados, outros não. Mas aos 70 anos com uma vontade danada de continuar a contribuir por um mundo melhor, onde todos sejamos irmãos, cuidando para que nosso Planeta Terra, nossa Casa Maior, não sucumba diante de nossas ambições e ganância. Paz pela paz.
Vanilda Souza Marques Porfírio
Jornalista e ambientalista
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