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A CADEIA de Graciliano Ramos

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O.M. Regispani
ACMCarvalho

Vejo que vestibulares atuais e exames do Enem e outros andam sugerindo bom conhecimento da vida e obra desse autor da segunda geração dos modernistas brasileiros, quase uma redescoberta desse alagoano da gema.
Cuidado, porém, pois é terreno delicado e sutil de nossas letras: nada fácil nem delicado, mas intrincado e seco,  dramático e quase árido como o sertão. Amargo, às vezes, e estranhas emboscadas em personagens ficcionais ou não. Parece muito com a realidade da época (não muito diferente de hoje). Estamos na metade do séc XX. Graciliano Ramos (1892/1953) viveu pouco, parece que viveu muito. Isso, viveu muito e escreveu bastante: muito observou no seu ambiente e no tempo da república velha e da nova no período do governo Vargas.

Uma de suas obras possivelmente a mais autobiográfica foi Cadeia, que depois teve outro título: Memórias do Cárcere publicada em 2 (ou 4 tomos) em 1953 logo após sua morte, como conta seu filho também escritor muito premiado Ricardo Ramos (1929/92), filho da segunda mulher:;eis que o pai enviuvara da primeira. Essa obra composta aos poucos ficou sem o último capítulo que o aitor acharia que poderia escrever em pocos dias.

Mas morreu e parece que essas páginas não comprometem a narrativa de sua dramática prisão que vai de Recife para o RJ onde fica dez meses sem acusação formal nem julgamento. Ele era comunista, ao menos se inscreveram no partido como fizeram Luiz Carlos Prestes, Jorge Amado e o arquiteto Niemeyer. Devia ser bonito querer protestar e se dizer comunista.

Sua carreira começou em 1929 com o primeiro livro publicado Caetés. Depois o prestigiado São Bernardo e Angustia em 1934 O importante Infância em 1945. Surge uma briguinha meio engraçada entre seus qualificados leitores..escritores ensaístas de renome: um informa que seu principal título é este; outro aponta outro livro. Assim todos seus livros disputam a primazia crítica! Conhecido mesmo é Vidas Secas transposto para o cinema e traduzido em varios idiomas como outras obras.

Há uma estranha observação de que o autor desprezava um pouco suas criações, talvez se exigisse maior perfeição. Achava sempre que o escrito não estava bom, talvez nunca tivesse publicado nada se não fosse os conselhos do também seu amigo do nordeste o José Lins do Rêgo. Esse Ramos não devia ser fácil e na carreira política não gostou de ser prefeito e dois anos renunciou mesmo que seus relatórios da administração fossem elogiados pelo governo do estado em Maceió pelo elegante estilo de um político (prefeitos não precisam muito de estilo nem erudição, na época, claro).
Foi levado para dirigir a imprensa oficial do estado. Ai caprichou! Quanto revés na vida desse homem comerciante, político, jornalista e escritor e preso sem saber por quê parece um pouco o Kafka de Praga. Só que este era um realista mágico surreal enquanto o Ramos era de uma dureza meio sofrida, mas quase terna e conformada.

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A Editora Record e livraria Martins costumam nas obras de Graciliano Ramos publicar pequenos ensaios como fortuna critica em anexo ou posfácio textos que muito esclarecem o leitor; geralmente são professores de Universidade leitores experientes na obra do Graciliano como: Octávio de Faria, Silviano Santiago, João Luiz Lafetá da USP. Conseguem
esses analistas rastrear, perscrutar e cotejar os textos de um grande autor e po-los sob ótica de análise psicológica ou linguística ou ainda literária, o que enriquece a leitura e o educa para sempre maior visão da complexa arte literária em prosa ou poesia. O leitor vai ficando assim também sempre mais exigente e rastreador com faro apurado para bons e talentosos autores na língua vernácula ou outra.

Graciliano posta-se como dos grandes escritores brasileiros logo abaixo do mago Machado de Assis (+1908). Situa se no âmbito do regionalismo rico sempre com outros: Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Guimarães Rosa etc. Recentemente surge um autor que desponta vigorosamente na literatura regionalista e já muito premiado e traduzido, com 44 anos o
baiano Itamar Vieira Jr, que em 2019 faz arder leitores e crítica com o TORTO ARADO e depois com o atual Salvar o Fogo. Os vestibulares contemplam muito o antigo funcionário do Incra ligado à U.f. Bahia que impressiona pelo estilo que capta influência dos grandes regionslistas citados acima.

O Brasil central e o pantanal também apresentam seus representantes como a região amazônica e o Sul com Érico Verissimo e outros. O nordeste sempre está violentamente presente nas ações que parecem suspender moral e ética, mas a realidade traz sempre justiça ou vingança quando não a esperança da Vitória cristã.

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Gregório de Matos e Padre Vieira eram do nordeste. Alencar e Gonçalves dias e Ariano Suassuna .Gilberto Freire.
Algumas cenas do Cárcere são vivas e impactantes. Um servidor tratava com atenção e delicadeza o preso Graciliano que estranhava o tratamento; depois veio a explicação: sabia que um dia esse preso seria grande autoridade, talvez ministro. Sentia isso! Assim, esperava um dia ser recompensado. Nosso autor parece não acreditar e ria_se da previsão.
A linguagem e narração apresentam influência de leituras que fazia GR de autores que entraram com metalinguagem complexas e sofisticadas como James Joyce e o regionalista americano premio Nobel William Faulkner ou Sartre.
Dostoievski também é sempre citado como grande influência na escrita e temáticas existencialistas como romance russo que aquele redige narrando a estada sofrida na prisão da Sibéria gelada do século XIX.

Essas estruturas narrativas devem trazer novidade e beleza para o leitor atento, mesmo que esse tenha de escavar um pouco e com suor para descobrir pedras raras na Insônia ou na Infância ou na Angústia; na fazenda São Bernardo ou no cárcere de presos políticos do RJ.

Consumiu o câncer e as tristezas mutantes da vida e do destino, mesmo dos artistas imortais.

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