William Douglas: Carta aberta ao governo de Israel

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O desembargador federal William Douglas
Raphael Monteiro/Divulgação

O desembargador federal William Douglas

Em 2014 fiz uma carta aberta para o governo brasileiro, criticando o Itamaraty e dizendo “não em meu nome”. Na ocasião, após fundamentar minha posição como decorrente da nossa Constituição Federal, eu disse:

“A alegada ‘desproporcionalidade’ só demonstra falta de conhecimento histórico, militar e da própria situação em tela. Como disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ‘não é assim na vida real’ e ‘a única razão para não termos centenas de mortos nas ruas de Israel é termos desenvolvido um sistema antimíssil. E não vamos nos desculpar por isso. Se não tivéssemos esse sistema haveria centenas de pessoas mortas nas ruas de Israel. Isso seria considerado proporcional?”. (…)

Ao apoiar incondicionalmente o Hamas, o Itamaraty tem responsabilidade sobre a morte de cada civil, cada ferido, cada criança e cada mulher usados como escudos humanos. Ir contra isso protegeria estes palestinos. Algum governante de Gaza, onde há muito não se realizam eleições, pode simplesmente pensar: “Para que parar de usar essa estratégia se o Brasil, nosso aliado, não a critica?” (…)

Usar palestinos como escudo humano pode; usar hospitais e mesquitas como depósito de armas pode. Porém, Israel se defender, não pode. Definitivamente, a postura do Itamaraty está indo contra o que determina nossa Constituição. O Itamaraty não pode apoiar terroristas. Simples assim. Se alguém quer fazer isso, não pode fazê-lo em nome do país. Fale como pessoa física, nunca em meu nome. Não em meu nome.”

Esta carta é assinada por alguém que ama Israel e ama a Paz.

Particularmente, concordo com todas as críticas que Israel faz à parcialidade da ONU e à sua omissão sobre o que o Hamas faz. Entendo todo o repúdio e asco por tudo que o Hamas acabou de fazer . Entendo o nojo que ocorre quando querem comparar o comportamento de Hamas e de Israel, e não verem a diferença entre como cada qual trata os civis, mulheres, crianças e idosos. Entendo o absurdo que é relativizarem o que o Hamas fez e não chamarem atos de terrorismo e barbárie pelo seu nome .

Sei quantas vezes Israel aceitou a solução de dois Estados e acho um absurdo muitos ignorarem que o Hamas sempre usou as doações humanitárias para construir túneis e armas em lugar de usinas de energia e de soluções hídricas.

Entendo que na cabeça de vocês não faz sentido querer que civis da Palestina tenham tratamento diferente de civis de Israel. O Hamas ataca, mata, estupra, sequestra, tortura e vilipendia civis de forma sistemática, intencional e sem aviso prévio . Não são danos colaterais, são o propósito do grupo. Israel é diferente: faz todos os esforços para evitar danos colaterais aos civis.

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Entendo que nenhum país em guerra fornecerá água e energia elétrica para o inimigo . Um inimigo que para as propostas de paz responde os três “Não”. Em suma, sou e sempre serei amigo de Israel. Todavia, assim como Israel quer a paz, eu e os brasileiros também a queremos.

A verdade é que Israel acabou de celebrar acordos de paz com alguns países e estava às portas de celebrar a paz com a Arábia Saudita. A tão desejada paz e, finalmente, os “Sim” que todos queremos. É isso que o Hamas mais quer destruir, pois sabe o efeito que esses acordos terão.

O que o Hamas acabou de fazer foi comemorado como vitória por atrapalhar a paz, mas é uma derrota moral e que revela o nível de barbárie desse grupo. Todavia, o grande objetivo do Hamas é promover o ódio contra Israel e usa civis israelenses e civis palestinos para retroalimentar a cadeia do terrorismo. O acordo de paz com a Arábia Saudita abalará fortemente o terrorismo.

Em suma, Israel não pode permitir que o Hamas vença, e o que seria sua maior vitória precisa ser-lhe subtraída. Israel tem a oportunidade de mostrar para todas as pessoas moderadas do mundo, e para os demais países árabes, o que é capaz de fazer pela justiça e pela paz .

Qualquer ódio e qualquer desejo de vingança de Israel contra o Hamas são plenamente justificáveis, o desejo (e o dever) de aniquilar esses terroristas é justificável, exercer a legítima defesa é justificável. Deixar Gaza com autogoverno resultou em seu uso como base inimiga e isso precisa acabar. Só que precisa acabar sem vocês perderem a autoridade moral que, no momento, possuem. Da mesma forma, sem perder o apoio internacional que, no momento, possuem.

Perdoem a citação, mas a literatura traz uma lição: “Nunca odeie seu inimigo, isso atrapalha seu raciocínio”. Eu, como amigo de Israel, preciso dizer que o tratamento que Israel recebe é injusto, sim, mas para ganhar essa guerra é preciso não deixar o (justificado) ódio atrapalhar o raciocínio.

Vocês estão seguindo a cartilha que o Hamas conhece e estão deixando o Hamas conduzir a estratégia de resposta. Se eles trouxeram algo nunca visto antes, e se já sabiam o que Israel faria, se vocês querem vencer precisam fazer algo diferente também.

Vocês entendem de guerras mais do que ninguém, mas há pontos nos quais o (justificado) ódio não está deixando vocês verem algumas coisas. Daí, a ousadia da presente carta.

Vocês nunca tiveram tanta exposição de quem é o Hamas e do que esse grupo realmente quer. Desde 1948, vocês nunca tiveram tanto apoio dos governos mundiais.

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Essa vantagem estratégica não pode ser desperdiçada. Então, um amigo de Israel humildemente pede para vocês atentem para aquilo que a justa ira de vocês está impedindo a visão.

Eis a sugestão de um amigo de Israel:

1. Concordo que vocês precisam fazer tudo que for necessário para aniquilar o Hamas.

2. Vocês sabem que o Hamas não quer perder os escudos humanos palestinos e quer tentar provar que os judeus são tão cruéis quanto eles.

3. Vocês também precisam inovar, fazer algo nunca feito. Para isso, não podem seguir integralmente a cartilha que o Hamas sabe que vocês seguiriam. Vocês precisam ser mais inteligentes que eles.

4. Ajudem os civis a saírem. Façam os civis palestinos verem que vocês são melhores que o Hamas (ou, pelo menos, façam os civis palestinos não obedecerem mais ao Hamas).

5. Bombardear a cidade de Gaza é uma decisão de guerra, mas, antes, despejem no Sul de Gaza comida, águia, barracas de campanha, medicamentos e tudo o mais que os civis precisarão. Surpreendam o inimigo, tire os escudos deles. Tornem a saída dos civis da cidade de Gaza algo impossível de o Hamas impedir. Providenciem vocês mesmo o novo espaço humanitário.

6. Não adianta apenas cortar a energia e água da cidade de Gaza. É preciso que haja água e comida em algum lugar. Avisem os civis onde podem encontrar abrigo e água. Virem esse jogo: tratem os civis palestinos como vocês gostariam que qualquer um tratasse os civis israelenses. Mostrem, mais uma vez, a diferença entre Israel e Hamas.

7. O Hamas está esperando vocês nos túneis e armadilhas que estão sendo preparados há tanto tempo quanto a invasão que fizeram. Eles sabiam exatamente o que vocês fariam após tamanha barbárie. Parem de deixar os terroristas escreverem o script. Assim como na guerra dos seis dias, está na hora de surpreender o inimigo. Mostrem a diferença que possuem, aumentem o prazo de saída, entreguem comida e água no lugar certo, salvem os civis alheios e, assim, mais uma vez, vençam.

Que D’us guarde seu povo, que D’us proteja Israel. Shalom!

William Douglas

William Douglas é Desembargador federal e integrante da Turma de Direito Tributário do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2). É professor, escritor, Mestre em Estado e Cidadania e pós-graduado em Políticas Públicas e Governo.

Fonte: Internacional

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