Uma prece desafinada

Uma prece desafinada

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No caminho do trabalho, vez ou outra, paro ali na Igrejinha do Rosário. Faço companhia aos pombos de lá por uns minutos, antes de continuar o caminho. Naquele silêncio, dei de mormurar uma melodia escondida na memória. Parecia algo entre um blues ‘raiz’ e Amazing Grace (o nosso “segura nas mãos de Deus e vai”). Combinaria, de certa forma, com a história dali.

Repetia na cabeça a primeira frase só, baixinho, sem saber qual seria letra. De novo e de novo. Saí de lá curioso e, quando procurei, meu Deus: eu tinha rezado ‘Mercedes Benz’, da Janis Joplin. Uma oração meio torta, dessas que não pedem luz nem perdão, só um carro importado.

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?
(Oh Senhor, você não compra pra mim uma Mercedes Benz?)

Divertido. Num lugar próprio pra pedir perdão, eu fiquei pedindo um carro importado. Cada nota uma súplica. E com fé. Perigava de sair de lá de chave na mão, com tapete novo e tanque cheio.

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Mas, talvez, toda oração seja um pouco isso. Um pedido disfarçado, um desejo tentando parecer digno do altar. Às vezes pedimos saúde; outras vezes, emprego; outras, só silêncio — e ali eu pedi conforto com logo cromado. No fundo, é tudo o mesmo gesto: o humano levantando os olhos e dizendo: “me ajuda aí, vai”.

Na gravação original, poucos dias antes de deixar esse mundo, Janis cantou sem banda, só a voz rouca e desafinada. Era deboche, claro, mas também era confissão. E essa verdade que torna a história curiosa. Não é sobre o carro — é sobre ter coragem de ser verdadeiro, ainda que soe ridículo. A fé, quando sincera, também desafina.

E acho que Deus gosta de rock. Talvez sim. E talvez ele se divirta com a gente tentando afinar a alma na correria e barulheira desse mundo.

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Pequenas histórias de ficção que bem poderiam ser reais. Alguns trechos verídicos que parecem mentira. Um verdadeiro protesto pela resignação pura e simples. Ou o avesso disso tudo. Mire e veja com suas próprias conclusões.

 

Respostas de 2

  1. Que fantástico, viajei aqui, Janis e Fé, uma mistura que por certo é inusitada, mas sim, vivemos do ei você ai…me dá um dinheiro ai (nesta caso trazendo sua poesia para o tupiniquim), mas muito bom, parabéns.

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