O relógio está parado um pouco depois das onze e quinze e, seja antes do meio-dia ou da meia-noite, pouco depois das onze e quinze é sempre tarde demais. Já coloquei pilha nova, alcalina, mas parece que ele desistiu de trabalhar. Acredito que porque também saiba que já é tarde demais pra qualquer coisa.
Os relógio digitais apagam quando perdem sua energia de modo que nada mais têm a dizer sobre as horas. O relógio de ponteiro não. Continua sisudo, indicando na parede lá da cozinha que é tarde demais.
Duas vezes por dia ele está exato. Preciso. Mas nos outros 1438 minutos poderia ser ignorado por qualquer compromisso. Acontece que quando eu entro na cozinha, ele está lá. Meio que rindo pro lado. Com aquele olhar superior de quem diz: “Tá correndo por quê, meu camarada?”
O acrílico da frente está rachado. É como uma cicatriz indicando que ele não foi sempre assim, cético e presunçoso. Mostra que durante muito tempo ele também tentou acompanhar as idas e vindas do sol e da lua.
Mas, ao contrário de mim, ele sempre andou em sentido horário. Todo corretinho, sempre sabendo o que devia fazer. Pedante e incomplacente. Por isso, embora meio inseguro diante do seu ‘pouco depois das onze e quinze’ ali, eu tento cumprir minha agenda do mês passado, correndo atrás das contas de tantos anos atrás.
Fui lá, tirar a foto dele como prova, e pensei que, ao contrário dele, mesmo sem pilha nova, eu continuo girando. Ciente. Quase acordado. Mas sem muita pressa agora, porque, afinal, já é muito tarde.
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Meu filho tem 12 anos e resolveu seguir os passos do… Stephen King.
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Secretária da Argumento Jornalismo Ltda (BlogdoMadeira e Jornal Folha de Varginha). Estudante de Publicidade & Propaganda.




























