Tempos astrológicos ou astronômicos

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Há poucos dias um eclipse lunar nos presenteou com o charme de uma lua de sangue. Muitos veem nesses fenômenos presságios, apesar de que provavelmente a lua se importa muito pouco com o que acontece aqui. Que importaria a um astro real, o que acontece as formiguinhas a seus pés?  

Enquanto passamos por nossas pandemias, guerras e governos incompetentes, a Lua faz o que as luas gostam de fazer, bailar pelo céu, inconstante, ora nos braços da Terra, flertando pelo cantinho do olho com o Sol, mas geralmente ocupada apenas consigo mesma, que uma lua cheia não precisa de ninguém.

Muito pouco não. A lua não se preocupa nada com a gente. Se o penteado espetou, se não deu praia, nem peixe, o que tem isso? Segue a lua a rodar.

Se algo veio com a lua, foi o frio. Este, em todo o caso, é controverso, talvez se ocupe realmente de nós. A par e passo a tanta queimada, a tanta destruição de florestas, serras e rios, o clima vai ficando cada vez mais temperamental, e já tem até cientista sério falando que, bem ou mal, pode ser que a natureza ande querendo tirar a forra da gente, ou até pedir o imóvel de volta.

Chamam isso de “hipótese Gaia”.  

Ainda que junto com o frio volte a preocupação com humanos e animais desassistidos, não tem como negar que nós mineiros somos mais mineiros nessa época. Nada deixa mais feliz um mineiro do que poder pingar um pouco de conhaque no leite com chocolate, ou uma pinguinha no chá de gengibre, sem que ninguém repare – pelo contrário, durantes os próximos três meses comer e beber são deveres patrióticos da grande nação caipira. Ser fitness é coisa de carioca, e que venham os bolos e o banquete junino.  Claro, se a inflação deixar…

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Nem o mais desvairado masoquista, desculpe, bolsonarista, consegue negar sem ficar com as bochechas vermelhas. O próprio mito afirmou que vivemos pior em seu governo. Batata de nove reais, cenoura de 18, gás de 120.Como chegamos a esse ponto? Será que somos tão pamonhas, que vai faltar pamonha em junho?

Nada deixa mais feliz um mineiro do que poder pingar um pouco de conhaque no leite com chocolate

O mundo todo vem tendo que lidar com a inflação, consequência das tristes guerras aflorando da insanidade pelo mundo. Nesse ponto tem pouco o que dizer sobre o Brasil, não fomos nós, vamos a reboque. E é preciso defender o presidente com convicção. Ele não foi a Moscou servir de distração enquanto Putin movia suas tropas por maldade, foi só por estupidez mesmo.

 Mas o amigo do Putin não atestou de bobo sozinho. Nós fomos, do nosso lado, permitindo calados que o ministério do agronegócio pusesse fim aos estoques reguladores, sábia prática bíblica que José ensinou ao faraó, mas que nossos políticos conservadores optaram por não conservar….  Também optamos por atrelar nossa energia e nosso combustível ao dólar, porque nossos patriotas acham que soberania é coisa pra gringo ter sobre a gente.

Cinco gerações de brasileiros construindo uma das maiores empresas do mundo para, na hora que precisamos dela, focar em mandar dinheiro pra Nova York. Dezenas de milhares de brasileiros voltaram a passar fome. Mas somos tão generosos, que vamos financiar as guerras, embargos e boicotes de nações mais ricas.

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Não estamos em guerra, mas escolhemos pagar pela guerra. Sim, outros países enfrentam desafios. A poderosa Inglaterra, pra ficar em um único exemplo, também registra queda na renda do trabalhador, salários ruins, mas passa por isso em um momento de pleno emprego (o desemprego mais baixo em 50 anos), enquanto recupera sua economia da pandemia.

Apenas dois países grandes têm desemprego de dois dígitos no mundo nesse momento, Brasil e Turquia.

Apenas dois países escolhem pagar juros de dois dígitos pra especuladores, ao invés de investir na retomada, Brasil e Turquia.

Em países bem administrados, os juros estão sendo usados pra conter inflação de demanda, devido a retomada. Aqui se infla os juros pra evitar que haja investimento e consequentemente oferta….

Todo mundo se lembra da famosa reunião, onde Paulo Guedes afirmou que financiando pequenas empresas perdemos dinheiro, que os investimentos deviam ir para bancos e multinacionais. Somos tão generosos que vamos extrair petróleo, plantar comida, esburacar montanhas e criar gado – não pra nosso povo comer com dignidade, mas para financiar as guerras, embargos e boicotes de nações mais ricas e alimentar outros povos.

Não estamos em guerra, mas escolhemos pagar pela guerra. Ainda bem que a Lua não está nem aí, ou eu ia ficar com vergonha da gente. Quem sabe depois das eleições nosso mapa astral mude. Ou mudamos nós.   

Rodrigo Prado Mudesto, varginhense, sociólogo e consumidor de choconhaque.

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