Se você for, eu vou

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—  quer ir ou não?
— Se  for, eu vou…
— Mas quer ou não quer?
— Se  for, eu vou.

Continuava perguntando e nunca tinha a resposta se “sim” ou “não”. Mas a gente sempre ia. A conversa se repetia no almoço de domingo e o convite era pra ver o “Flamengo de Varginha”, lá no Estádio Melão. Nos anos 90, a gente tinha o nosso próprio Flamengo na cidade, antes do ET passar por aqui.

Mas teve um jogo que nem precisou de muito convite! Num dia de meio de semana, à noite, o nosso Flamenguinho enfrentou nada menos que o “Flamengo do Rio”. Isso mesmo, o original, que a gente acrescentava o “do Rio” no nome pra diferenciar do nosso. Vou te contar como lembro, sem conferir nada no Google.. E eu não lembro sequer o ano.

Era a final de um quadrangular.O de Varginha tinha passado pela Caldense; o do Rio, pelo Cruzeiro. O goleiro “do Rio” era o Zé Carlos e o dez era o Bobô, lembra dele? Campeão brasileiro pelo Bahia anos antes. Do de Varginha eu lembro do 9: Nunes. O “Artilheiro das Decisões”, campeão de tudo pelo Flamengo verdadeiro. Depois do final da carreira jogou aqui. E foi dele os dois gols que o Flamengo de Varginha fez no primeiro tempo.

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Deve ter sido a única vez que eu e o pai torcemos por times opostos. Ora, eu nunca tinha visto o Flamengo de verdade, assim, ao vivo. E ele, orgulhoso de ver o time da cidade ali naquele encontro improvável. Na prática mesmo, gostamos de todos os quatro gols: os dois do Nunes, de cabeça, se me lembro bem. E os dois que o “do Rio” fez depois, levando a decisão para os pênaltis. Aí não teve jeito, o Zé Carlos fez a defesa que deu o título para os originais, naquele dia em que não havia a menor chance de voltar triste para casa, seja qual fosse o resultado.

Ah, mas não era fácil ser Flamengo de Varginha. Goleadas ocasionais para os times de Belo Horizonte, rivalidade acirrada com os vizinhos de Três Pontas e Três Corações, além da “Veterana” Caldense. Mas a gente estava sempre ali. Se ele fosse, eu ia. Às vezes com a família toda; às vezes com tios e primos; às vezes com os amigos do bar; outras, só nós dois.

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Ali no Melão, fui aprendendo a comemorar um gol. No começo, lembro de continuar sentado, vendo todo mundo pular. Com o tempo, passei a me levantar. Quieto ainda, mas de pé. Respeitoso, como na hora de rezar o Pai-nosso na missa. Já estava quase gritando “gol” quando aquele tempo passou.

É. O tempo passa sem a gente querer, e eu não tive como dizer, mas eu queria ir, sim, pai. Toda vez. E, quem sabe, a resposta fosse aquela porque, sem você, não ia ter muita graça.


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Pequenas histórias de ficção que bem poderiam ser reais. Alguns trechos verídicos que parecem mentira. Um verdadeiro protesto pela resignação pura e simples. Ou o avesso disso tudo. Mire e veja com suas próprias conclusões.

 

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