Quem não se enxerga no BBB que atire a primeira flor

Fui burro até os 11 anos
Imagem: Blog do Madeira

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O BBB é um programa polêmico, mas é fato que sua audiência é espantosa, mesmo para os dias de hoje em que o fenômeno da adesão midiática vem se consolidando com uma intensidade arrebatadora com o incremento e evolução da internet.

Para ficar só com um indicador desta dimensão acachapante do alcance do programa, no dia 8 de março, dia da eliminação da participante Jade Picon, mais de 690 milhões de votos foram registrados (2ª maior votação da história do programa).

Observação: não necessariamente são 690 milhões de votantes individuais, pois uma pessoa ou um robô pode votar quantas vezes quiser, mas mesmo que fossem 10, 5, 1 milhão de votantes individuais já seria um fenômeno midiático a ser considerado.

Parte deste fenômeno se deve a possibilidade de interação que o formato do programa permite. Fenômenos midiáticos estão intimamente ligados aos formatos interativos (participação relativa do público alvo), mas este é um papo que merece uma reflexão a parte.

Tem os que não gostam de assistir, normal. Eu gosto. Como observador social que fui treinado pra ser, muito me atrai tentar entender o que acontece naquele “laboratório social”.

Aqui vão minhas observações despretensiosas, mas acho que, assim como eu, muitos estão levantando questões semelhantes.

A primeira observação, é o quanto este formato de programa televisivo chama a atenção do público, como já mencionado acima, os números são “absurdos”.

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A segunda e não menos interessante, nos remete elaborar uma pergunta extremamente instigadora: onde está o racismo estrutural e cotidiano na TV quando mulheres, pretos, transexuais, pobres, não são eliminados pelas votações de milhões de participantes quando em disputa com os participantes com padrão social mais aceitos, héteros, brancos, alguns famosos e endinheirados? O preconceito que de fato é real não se manifesta nestas votações? Porque? Alguns dirão, com toda razão, que não se pode estabelecer correlação entre a realidade social de um país e um programa de TV. Concordo, mas dito isto, a questão continua válida e interessante. Algo a ser estudado?

Terceira observação, são três os critérios principais que levam à eliminação ou não do participante:

a. Sua capacidade de, ao construir sua narrativa ou sua interpretação do jogo, ser didático e expressá-la com verdade em correlação ao que de fato aconteceu (vulgo não mentir). Então, temos dois elementos nesta capacidade de construir a narrativa: clareza na formulação e expressão e verdade e coerência para relatá-las;

b. Ser de alguma forma injustiçado, seja por sofrer preconceito, seja por ser alvo de indivíduos ou grupos determinados ou outros motivos. Isto estimula o sentimento de solidariedade e sede de justiça nos telespectadores (óbvio para quem está assistindo, mas não para quem está mergulhado no laboratório de sentimentos estimulados intensamente “dentro da casa/caixa BBB”;

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c. Ser ativo no jogo. Não ser planta, ser protagonista, interagindo frequentemente com os outros participantes. “Fazendo e acontecendo”. No BBB quem muito planta, pouco colhe.

Quarta e talvez a mais realista constatação: mesmo dentro do “laboratório casa/caixa BBB”, com todas as variações culturais, étnicas, sócio econômicas que cada um dos participantes carrega e leva consigo para o “jogo”, fica evidente que somos muito parecidos. As diferenças ficam mesmo por conta dos “adereços” ou das aparências que cada um lá faz mais ou menos questão de demonstrar. No final, com TV ou sem TV, com mídia ou sem mídia, com BBB ou sem BBB, somos “humanos, demasiadamente humanos” e talvez este seja exatamente o principal fator de sucesso do programa: nos vemos muito bem refletidos e representados na Casa que não deixa de expressar nossas relações de forma verdadeira, ainda que alguns participantes tentem por um tempo atuar como se estivessem em um teatro. Não há realidade cotidiana que não desnude “a vida como ela é”.

Quinta, o coringa da vida: ser “gente boa”.

Melhor que novela!

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