Fui burro até os 11 anos. Pelo menos é como me sentia, apesar de estudar em uma escola de elite. Aos 12 anos pedi pra sair. Queria estudar em uma escola pública. Achava que iria me encontrar melhor.
Foi minha salvação.
Minhas notas melhoraram de média 6 – 7 (quando me achava burro), para 8 – 9 (quando me salvei da ideia de ser limitado intelectualmente).
(Aqui faço uma observação. Inteligência e sensibilidade independem de escola e cursos, mas uma boa formação depende de bons professores e boas escolas. Aprendi isto já adulto, infelizmente.)
Peguei alguma razão.
Foi lá, na escola pública que tive contato com professores, digamos, idealistas de uma sociedade diferente, melhor. Se questionava mais. Aprendi a me perceber critico, posto que o pensamento e a ação crítica eram bem vindas. Lembro do professor que criou um grupo de amigos da natureza e entre aulas e palestras, plantamos algumas árvores. A que plantei ainda está lá, imaginem. 40 anos depois, a belezinha ainda está a florir. Aprendi também que o planeta estava ameaçado e que rediscutir nossa relação com ele era fundamental. Navegar, pensar, agir, repensar. Já me sentia melhor neste mundão, mas continuava acabrunhado.
Com 15 anos fui estudar em outra cidade.
(Aqui o meu agradecimento existencial a meus pais que, mesmo entendendo muito pouco ou quase nada de minhas demandas, sempre me permitiram navegar. Amo também eles especialmente por isto.)
Nesta escola, onde fiz meu ensino médio, o regime era de internato. Estudávamos e cumpríamos tarefas práticas, tipo: ordenhar bovinos, alimentar suínos. Lá, participei e tive noção do que era uma “cooperativa”. Lá, dos 15 aos 17 anos, aprendi o que era ter responsabilidade com o patrimônio coletivo, com os colegas, com os animais, com a natureza. Lá, também, aprendi a discernir o que eu queria e não queria para mim. Lá, eu comecei a trilhar meu próprio caminho me achando um cara “legal”, ainda que esquisito. Mas, lá também, avancei em meu processo de descoberta/construção da identidade. Tinha (deve ter até hoje) uma biblioteca linda. Adorava passar horas e horas nela e foi assim que descobri adorar ler especialmente biografias. Comecei a ler com mais frequência e a me entender como um ser pensante, talvez até pudesse prosseguir com minha formação, comecei a desejar ser um profissional.
Formado aos 18, prestei vestibular e não passei.
Decidi trabalhar.
Quatro anos depois, a inquietação não passava. Eita caboclo esquisito, pensava sempre. Um dia, numa viagem de “playboy” para a praia, encontrei pessoas parecidas comigo. Ufa! Não era o ET de Varginha que pensava ser. Bingo! Que alívio. Tem mais gente como eu. Então, descobri que existia a sociologia, área de estudos onde um povo pensava os coletivos sociais, seus fenômenos, as relações entre este mundão sem fim, um meio de tentar entender um pouco melhor onde estamos e quem somos e trabalhar sua transformação. Me achei.
Fui pra Universidade.
Me encontrei mais ainda com uma parte do povo de lá. Glória, já não me sentia mais sozinho, tampouco isolado, como em toda minha vida. Vi que tinha gente que até me respeitava. Fui eleito em vários momentos para funções de representação estudantil. Senti, pela primeira vez, que participava de um processo de transformação social e fiz disto minha opção de vida. Foi neste momento também que aprendi a importância da “politica” como possibilidade efetiva de realizar as transformações sociais necessárias. A política como disputa de poder, de representação das diferenças, como arte de busca de consensos e os partidos como uma das formas de representação do fazer “politica”.
Foi, depois de muitos anos de militância social, voltando à Varginha, que resolvi me filiar a um partido. Foram 20 anos de militância partidária na mesma agremiação. No partido, depois de anos filiado, fui candidato pela primeira vez, por necessidade do coletivo. Era o tempo que o PT era discriminado até o talo, ainda mais que atualmente. Poucos podiam ser candidato sem perder o emprego ou se preocuparem com sua sobrevivência. Poucos candidatos, vagas sobrando. Então, minhas primeiras 2 candidaturas funcionaram como um “pneu estepe”. Acreditávamos e se provou verdade, que as campanhas eleitorais poderiam ser momentos de formação cidadã. Nestes curtos períodos, o eleitor fica mais atento a estas questões. Fazíamos de nossa campanha eleitoral, momento de reflexão. Por isto valia a pena sair candidato com pouquíssimas chances de vitória, pois éramos seres desconhecidos em disputa direta com deputados, ex prefeitos e sem grana, na proporção de 1 real x 1000 reais dos candidatos “famosos e endinheirados”. Foram 6 candidaturas consecutivas, de dois em dois anos, candidato. O objetivo maior era construir o partido, divulgar nosso projeto de governo e, principalmente, utilizar estas ferramentas para transformar a sociedade.
Fui neste rastro desde então acreditando que estava fazendo a minha parte como cidadão, sociólogo, que deveria retornar à sociedade o que de bom recebeu do ensino público. Orgulho de chegar aos 57 anos, já há 13 anos sem militância partidária, mas com esta mesma convicção: a de que é fundamental se encontrar neste pedaço de chão, nesta fração mínima de tempo histórico e se propor a transformar o que for possível e lhe couber individualmente. Alguns chamam de missão, mas, particularmente, acho pomposo demais. Prefiro deixar na dimensão mais intima e individual, então defino como razão existencial de viver.
O propósito aqui foi publicar uma experiência similar a muitos milhares de militantes sociais que se propõe, de infinitas maneiras, ajudar na melhoria do mundo e, compartilhando-a, incentivar mais cidadãos a se dedicarem à construção de uma sociedade melhor para todos.




















