Foto: Sumo Pontífice São João XIII, domínio público
Paz…uma das grandes aspirações humanas desde sempre, essa é construída com a justiça e solidariedade, é o mesmo que dizer: só o amor constrói, uma das claves iniciais do Evangelho e da civilização e cultura cristãs. Com o título curto e elevado a alta solenidade, o Papa João XXIII (Ângelo Giuseppe Roncalli, 1881/1963) o chamado “Papa Bom”, publica sua última carta Encíclica em abril/1963, dois meses antes de morrer em junho: a Pacem in Terris.
Elevado texto e bem condensado, criou novo impacto na imprensa no mundo cristão, mesmo porque dois anos antes, em 1961 já fizera publicar a conhecida e inovadora Encíclica Mater et Magistra (Mãe e Mestra), comemorando os 70 anos do divisor documento de Leão XIII (+1903), a Rerum Novarum (Das Coisas Novas) de 1891, esta sobre a momentosa questão operária, em oposição às doutrinas socialistas de Marx e Engels, que em 1848 deram o brado de sua ideologia com o Manifesto conclamando todo o mundo proletário e oprimido (escreviam os dois).
A Mater teve enorme divulgação na imprensa e renovava e ampliava em meados do século XX os fundamentos da doutrina social da IGREJA iniciada pelo papa Leão XIII e jornais e revistas transcreviam seu texto, comovente manifestação do sábio magistério da IGREJA. Difícil não se comover com seus 258 longos parágrafos, que parecem seguir a Declaração dos direitos Humanos da ONU e explicita-los detalhadamente à luz do Evangelho trazido aos tempos modernos, quando, terminado o violento conflito ds Guerra Mundial de 1939/45 com 60 milhões de mortos dos 5 continentes, se inicia uma paz precária e ameaçadora entre os blocos Ocidente e URSS, que com a China, Coréia e Vietnam prolongam ameaças recíprocas com o perigo nuclear, agora introduzido no mundo.
Em 1962 quase eclode um conflito atômico quando os EUA decretam bloqueio naval da vizinha Ilha de Cuba que recebia armamentos da União soviética. O mundo tremia, colados os ouvidos nos rádios ( havia pouca TV por aqui), e João XXIII fez intervenção pessoal junto ao estadunidense Kennedy e ao russo Krushev. Segundo relatos, houve distensão e tudo volta ao quase normal da guerra Fria. Os documentos do papa e tambem alguns do Concílio Vaticano II (1962/1965) refletem o anseio de paz e progresso das nações de todo o mundo: países desenvolvidos, os em desenvolvimento e os atrasados e pobres…
A Pacem in Terris é assim um brado complementar da Mater et Magistra e nos traz a beleza da mensagem cristã de paz e harmonia entre as nações e reforça conceitos de justiça social, como o de solidariedade e o de subsidiariedade explicados na Encíclica, que por sua vez replicava ensinsmento de Pio XI na encíclica social Quadragesimo Anno de 1931. As nações desenvolvidas e as comunidades mais avançadas devem ser solidárias com as mais carentes e o outro princípio nos mostra que essa ajuda complementar deve ser justa, na medida em que a outra nação precise e apenas naquilo em que não consiga se alavancar e se construir por esforço próprio. Princípios válidos para comunidades e cidadãos também. Ajudemos o outro a se construir a partir dos recursos que possuímos e por meio do próprio trabalho humano, sua inteligência e esforço. Vemos como se reconstruíram as nações derrotadas na Guerra que logo se reergueram…
A PAZ é fruto do trabalho e inteligência do homem, como também dom de Deus e do Salvador. Parece que o atual status das nações envolvidas no conflito na Europa oriental tem trazido medo e transtornos no mundo e muitos perigos insuspeitos até dois anos atrás. A Pacem in Terris precisa com extrema urgência ser relida e meditada por todo cidadão, especialmente pelos arquitetos da guerra e seus fautores e alimentadores de ambos os lados… Esses apelos podem ser relidos nos discursos do papa Francisco e nos seus documentos muito instigantes LAUDATO SI e FRATELLI TUTTI, calcados no pensamento de são Francisco de Assis (+1226) e na cultura moderna da Ecologia e da Etologia.
Não deixou de surpreender que no endereçamento da Encíclica, quando se nomeiam os destinatários do documento (Srs. Bispos, patriarcas, clérigos, fiéis leigos e cristãos em geral) o papa João acrescenta, pela 1ª vez: “a todas as pessoas de boa vontade, sobre a PAZ de todos os povos na base da Verdade, Justiça, Caridade e Liberdade”.
A partir de então, costumam os pontífices usarem esse genérico e amplo endereço a todas as pessoas do mundo, de boa vontade.
A introdução da Carta trata da Ordem no universo e nos seres humanos. Depois sobre direitos à existência e um digno padrão de vida; depois menciona os valores morais e culturais e o direito de honrar a DEUS segundo os ditames da reta consciência.
Direito à liberdade na escolha do estado de vida; direito ao campo econômico; direito de reunião e associação; direito de emigração e imigração; direitos de caráter político; sobre senso de responsabilidade; aspectos do bem comum; sinais do tempos.
Na sequência, solidariedade dinâmica; equilíbrio entre população, terra e capitais; os profugos políticos; o desarmamento; a 4ª parte trata das relações entre os seres humanos e as comunidades políticas e a mundial etc.. A 5ª parte com diretrizes pastorais e o dever de participar da vida pública; católicos e não católicos etc..
Os últimos parágrafos levam a rubrica “O Príncipe da Paz”. Todos os subtítulos apontados acima e vários outros levam em anotações de pé de página todas as inúmeras referências a textos bíblicos e a outros inúmeros documentos da IGREJA, dos pontífices anteriores, eis que a partir da Rerum Novarum foi-se construindo um largo magistério no âmbito da doutrina social com são Pio X, Pio Xl, Bento XV e Pio Xll, que se utilizava muito das mensagens radiofônicas pela então potente Rádio Vaticana, como a mensagem de Pentecostes de 1941, em plena 2ª Guerra.
É costume a cada 10 anos se publicar uma Encíclica comemorando o aniversário daquele documento social de 1891. Após João XIII, que foi canonizado pelo papa Francisco em abril de 2014, os seguintes sucessores editaram sempre encíclicas ou documentos de cunho social renovando orientações pastorais sobre o trabalho, o emprego e salários, sobre dignidade humana etc.. São amplas e específicas Exortações da IGREJA que devem servir de luz e advertência à sociedade humana, à pobres e ricos, sobre ética nas relações e nos governos dos Estados modernos. As desigualdades existem e são e gritantes, como as ferozes ditaduras e injustiças; mais grave cenário ainda: não somos mais 2 bilhões a habitar a Terra como nos anos 50, mas estamos chegando a 8 bilhões de habitantes, arriscando-se à guerra que poderá não sacrificar apenas 60 milhões de vidas, mas bem, bem mais… com tanta inteligência e boas armas, esquecidos dos apelos de Cristo Rei a uma universal Paz na Terra… que Paz?
OMR. Revisão de BVRAzevedo.
Acesse este link para ouvir a transmissão radiofônica do papa São João XIII aos brasileiros, por ocasião da inauguração de Brasília: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Mensagem_do_Papa_Jo%C3%A3o_XXIII_ao_povo_brasileiro_%E2%80%93_edited.wav
Acesse este link para ter acesso à Encíclica Pacem in Terris:

Jornalista profissional (formado em Comunicação Social e Direito), radialista e cerimonialista. Escreve sobre política desde 1993. Fundador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Servidor municipal. Comendador do Mérito Legislativo de Minas Gerais. Diretor de Comunicação da ACIV (Associação Comercial de Varginha) e vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas de Varginha). Foi membro da Academia Varginhense de Letras. Diretor da Abraço e do Voluntariado Vida Viva. Comentarista político da Rádio Clube de Varginha (99,3 FM). Organizador do livro “Narrativas de Nico Vidal”. Autor do livro “Causos da Política (acontecidos em Varginha)”. Apresenta o Blog ao Vivo e o Podcast Varginha em 1 minuto ou mais. Cozinha pra família nos finais de semana (às vezes fica bom). Cruzeirense.




























