— Olegário? Uai, cê sumiu…
— Pois, então. Djavan me ligou. Disse que ‘rolou uma química’ depois da minha interpretação do “Oceano”. Combinou do advogado dele negociar comigo.
— Negociou?
— Não. Eu tava escondido desde então…
— E aparece assim, de repente?
— Depois do seu último texto eu não consegui ficar quieto. Um desvario desse não pode ficar impune…
— Mas…
— Mas não. Senta quieto aí e deixa eu falar.
— Ah, eu queria te perguntar se é você que era o marido da Dona Nó no Desencontro… ou alguém de mesmo no…
— Shipt! Ara, sô.
— …
É crônica. Mas sem muita gravidade.
— “Polissemia” que chama isso de uma palavra ter significados diferentes. É muito usado pelo Humberto Gessinger e piadas e músicas de duplo sentido. Só que nesses casos costuma ser engraçado. Aliás, sr. cronista, essa da crônica ser “grave” você já usou antes. Alguém já te disse que é bem repetitivo?
— É que…
— Não precisa respoder. Vamos continuar.
Flutua como na lua. Já comi queijo melhor. Com goiabada de companhia.
— Acredito que o senhor pensou: “ah, vou escrever um texto inteiro usando a polissemia.” O “como” de igual para o verbo comer é meio chulo, né? Aliás, deve ter ido lá no Google procurar como chama isso de uma palavra ter vários sentidos. “Espirituoso, por que não?” Mas não conseguiu nem o primeiro parágrafo: na “lua/queijo/goiabada” ali já teve que usar a “associação de pensamento”. Mais um recurso repetitivo seu, convenhamos. Tenho que te dizer que nem sempre funciona, meu caro.
A de luz deu bandeira dois. Mas é melhor não se expor. Na vitrine é obrigado por etiqueta. E aqui não se encontram boas maneiras.
— Difícil de encontrar ali o “dar bandeira”. Forçou a barra um bocado. Mas sei que foi meio tipo: “eu podia estar aqui reclamando da conta de luz ou, pior, podia fazer a crônica falando de mim”. Em um nítido tom de ameaça contra o leitor. Não sei se é bem assim que “engaja”… E então ficou com medo porque se expor tem seu preço e o senhor não é muito de dizer o que os outros querem escutar e SEO’s e outros escambaus, que eu sei. Por isso não encontrou boas maneiras.
É que não tem um manual pra fazer isso. Se as mãos digitam seria digital? Impressão sua. Já nem são impressas mais.
— Depois vem se justificar: “não me ensinaram a fazer isso.” Não aprendeu porque não quis. Que fique claro. E o manual/digital foi bem infantil, né? E aí brinca com a impressão digital, impressão sua, imprimir papel… Seria alguma mensagem subliminar sobre o seu ofício de verdade? Porque é lá que você ganha o pão, né? Se depender disso aqui…
E fazer força não adianta. Por que tão apressado? No orçamento é com cê-cedilha. Mas isso não tem nenhum valor.
— Continua ligando o imprimir com fazer força, liga o adianta com apressado, força a barra de novo com o apreçado, de preço e, por fim, se lamenta porque ninguém lê suas lamúrias. Que dó.
Aliás, os valores são personalizados hoje em dia. Cada um tem o seu. Seu? Não, de cada um.
— Aí vem de liçãozinha de moral ao mundo desvirtuado de hoje. Tenta uma dubiedade no pronome “seu”, que, vale frisar, não funcionou, ok?
Próprio. Privado. Mas público quando é publicado. E desconhecido porque ninguém quis saber.
— E dá-lhe choramingos. Repetitivo de novo. Resumindo: coloca ali que se esforça pra escrever suas gracinhas e não recebe nenhum “muito obrigado”. Triste. Maestro Cassiano disse que artista carente é muito démodé. Se bem que usar essa palavra é que é fora de moda pra car#%$*lho também.
Desconhecimento. É ele que move o mundo. Se soubessem a problemada que podia dar nem davam início.
— Enfim algo relevante: um contrassenso. Quase engraçado. Reflexivo. Pena que não tem bagagem suficiente pra usar isso mais vezes. Poderia ser bacana…
Melhor era manter a roda quadrada. Enquadrada. Na parede, só pra se observar. Sem serventia nenhuma. Desescravo da obrigação de ser.
— E aí abandonou de vez a ideia da polissemia e veio só de “livre associação de pensamento” que é mais fácil. Típico seu. Planeja, mas quando dá trabalho procura um atalho. Pelo menos escolheu o recorte certo pra ilustrar o texto. Trouxe a tensão ali da inutilidade do esforço até encontrar o alívio da falta de obrigação. Só não esquece que os boletos continuam vencendo, tá?
Uma ideia vaga. O pensamento vagueia. Apesar de tudo, existe. Mas quem bebe daquela água?
— De vaga pro vagueia encontrou, sem querer, o Paulinho da Viola. Aliás, só conheceu a música com a Marisa Monte, mas acha chique citar Paulinho da Viola…
— Injusto. Eu tinha o CD “Sinal Aberto”, vai…
— Shipt!
Danço eu, dança você.
— A melhor polissemia do texto. Pena que não é métiro seu: se ferra você, o escritor, com a perda de tempo e se ferra o leitor, porque não lê algo que preste.
Uma coisa leva a outra. Uma palavra diz tanta coisa. E eu não tenho mais nada pra dizer.
— Como todo perdedor vem com a prosinha de “eu poderia ter feito tanta coisa, mas não vou brincar disso nunca mais.” Lamentável. Eu tinha que te dizer isso: lamentável. E a próxima vez que quiser escrever abstrato me consulta antes: se faça esse favor.
— 😧😞…
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Secretária da Argumento Jornalismo Ltda (BlogdoMadeira e Jornal Folha de Varginha). Estudante de Publicidade & Propaganda.





























