Nossa harmonia

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Texto de Alexandre Braga, publicado na última edição do Jornal Folha de Varginha de 2023

 

Pessoal,

Com a chegada do fim de ano, temos a impressão que o tempo cronológico está passando cada vez mais rápido. Em um paralelo com a contemporaneidade, me parece que os dias e meses estão iguais às mensagens de voz de WhatsApp, quando escutadas no dobro da velocidade. Nas duas situações, corre-se o risco de que a essência que as compõe passe despercebida…

Como muitos de nós usamos o final do ano para reflexões, tenho percebido que, na multiplicidade de afazeres diários, muitas das vezes entramos em desarmonia com nosso ser. Tal fato pode ser indicado por diversos sintomas e seus limites cada vez menores: a irritação, a impaciência, o tédio, a fragilidade.

Nosso ser não está livre de desafios, dificuldades, provas…, porém, novamente usarei esse espaço para ressaltar o bem que a música pode nos proporcionar. Ela pode, em uma reflexão pessoal, ajudar a nos “afinar”, trazer harmonia entre os elementos presentes na realidade de cada indivíduo. No âmbito da vida social, também sentimos a importância da harmonia. Muitas vezes dizemos que tal família (ou qualquer outra formação social) é harmoniosa.

Obviamente, nas relações humanas também existem desafios, conflitos e divergências, mas o harmonioso, nesse caso, indica que tais dificuldades são “afinadas”, em busca do bem comum. Após apresentar brevemente a harmonia no cotidiano pessoal e social, gostaria de fazer uma breve reflexão sobre essa palavra. Podemos compreendê-la como um equilíbrio de tensões contrárias.

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De acordo com a mitologia grega, como André Balboni apresenta em seu fantástico livro “Sopro das Musas – Fundamentos filosóficos da música”, a Harmonia seria filha dos contrastantes deuses Ares (deus da guerra) e Afrodite (deusa do amor); surge do amor entre contrários. E a harmonia é um dos elementos que formam a música. Entre outras configurações, podemos percebê-la em momentos onde as dissonâncias (discordâncias) se transformam em consonâncias (concordâncias). Harmonia dos sons…

Às vezes a música, em nosso cotidiano, cumpre apenas uma função “ornamental”; ouvimos, mas não a escutamos. Assim como as mensagens de Whatsapp, a essência pode se perder…No sentido de nos “harmonizarmos”, os convido a separar um tempo, pequeno que seja, para perceberem a música e suas nuances.

Perceber elementos musicais podem nos trazer paz, conforto, suscitar emoções. Como ponto de partida deixo o exemplo abaixo. Trata-se da “Serenata”, do compositor Enrico Toselli, música que tenho a felicidade de tocar com a talentosíssima amiga Elvira Gomes.

Percebam como o piano prepara a entrada da melodia, que será apresentada pela flauta: ele executa uma breve introdução, com uma música repetitiva nos graves, completada por acordes na região aguda. A flauta entoa uma belíssima e fluente melodia, que parece percorrer um caminho.

As melodias que surgem, se fazem como estradas, deslizando sobre o acompanhamento do piano, cada qual com suas belezas particulares. Em alguns momentos, como aos 40 segundos, flauta e piano compartilham da melodia.

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Em outros, a música parece suspensa, como se, durante a estrada a qual fomos conduzidos, nos encantássemos com alguma paisagem especial e parássemos a viagem para apreciá-la (como, por exemplo, aos 58 segundos do vídeo)! Ouça, viaje, descubra sua própria resposta, sua interpretação dos materiais sonoros que compõem a música!

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