Parte 01 – Mario vs. Sonic: dois jogos novos na mesma semana, uma briga de trinta anos

Uma noite no Capitólio: espetáculo de alunos do Conservatório adapta Ionesco
Edição: Eduardo Bregalda Jr. / Blog do Madeira

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É outubro de 2023, e o presente de aniversário que eu ganhei do universo foi a volta da rivalidade de Mario e Sonic, cada um com um novo jogo de plataforma 2D, disputando diretamente as vendas. Os dois já foram grandes rivais, nos anos 90, e hoje se encontram todo fim de semana, seja em Smash Bros. na série dos Jogos Olímpicos, ou recentemente nas bilheterias. Eu, nos anos 2000, um moleque varginhense, faixa preta em ser nerd, naquela mistura de intensa paixão com inabilidade social que faz algumas crianças exalarem um ar de caos, acidentalmente aprendi inglês sozinho como efeito colateral de minha obsessão com videogames. Hoje, sou professor de inglês.

 

Outro fato: passei muito tempo lendo sozinho em eventos familiares. Domingão torando o sol mineiro, as cores do mundo explodindo em brilho exuberante, avó e/ou tias cozinhando e fofocando e TV ligada e as primas juntas, e eu sozinho em algum quarto lendo revistas velhas de videogame de meus primos mais velhos. Eu fazia isso pra passar o tempo, isolado em minha vergonha kafkiana. Eis o segredo de nosso protagonista: durante meus anos formativos, eu fui incapaz de lidar com a presença do feijão. Não é que eu não comia o grão, fonte de ferro, que compõe metadinha com arroz na definição padrão do que é um almoço brasileiro. O cheiro da coisa e seu aspecto me causavam um enjoamento só controlável mudando de cômodo. Eu ficava ansioso e desconfortável de saber que tinha gente comendo feijão nas imediações. Sempre achei um espetáculo horroroso, um ser humano tentando comer. Já parou pra prestar atenção? Triturando com nossos apêndices de cálcio essas misturas de matéria orgânica tratadas por máquinas industriais e embaladas, engolidas com saliva para dentro dum tubo de carne fedorento, energizando nossos corpos.

Tudo isso pra dizer que num videogame, não há esses desconfortos terríveis da matéria. Mario e Sonic sempre foram presenças que me deram uma força. Sempre fui mais parcial ao Mario, afinal também tenho um irmão mais novo que é mais alto e responsável que eu, e tenho uma foto de nós dois juntos onde eu estou literalmente de vermelho e ele de verde.

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O primeiro videogame de minha família foi o Mega Drive, comprado por meu pai antes de eu nascer, e minha irmã mais velha cresceu com Sonic e cresci olhando ela jogar, um neném hipnotizado, predestinado pros jogos. Mais tarde, eu herdaria o Super Nintendo comprado por vovó pros meninos da família, e nele começam as memórias conscientes de jogar videogame. Herdei também o Nintendo 64, e possuí, sob circunstâncias muito específicas, um Master System e um Dreamcast (a Björk dos videogames), mas hoje, entre os aparelhos que guardei, o único que não é da Nintendo é o Playstation 2.

Super Mario Wonder saiu dia 20 de outubro, e Sonic Superstars saiu no 17, ambos disponíveis pro Nintendo Switch. Joguei ambos dia 19. Não me pergunte como. Sonic está em outras plataformas, como Xbox e Playstation, mas você não consegue escrever Mario sem M de Monopólio.

Quando Mario e Sonic disputavam a dominância pelo joguinho 2D de passar fase, vivemos uma era de ouro do que seria videogame ainda predominantemente como brinquedo de meninos. Mais tarde, o público alvo se tornou jovens adultos, e hoje, a cultura é mais expansiva, embora ainda ocorra uma predominância de macho hétero nos protagonistas dos jogos de mais alto orçamento. O 3D complicou muito a situação, e alguns tipos de jogo perderam espaço, com outros predominando. Mario se saiu muito bem no 3D. Já o Sonic, há quem diga que até hoje ele nunca teve um bom jogo em 3D. Eu amei Sonic Adventure no Dreamcast. O primeiro em 3D. A música me chacoalhou, no alto de meus 12 anos de idade, a era naruteira da alma, e o Sonic era esse totem máximo do que é ser radical e descolado e livre. Também amei Super Mario 64, por ser o jogo que me ensinou a andar em museus, e o primeiro jogo a me botar medo. Quando ouvi a gargalhada do Bowser ao entrar no castelo, não sei se aos 6, ou aos 8, senti calafrios. Nada era seguro, com aquela risada ecoando nos corredores vazios. Pensando aqui, Mario 64 é um jogo levemente desconfortante, e talvez seja parte do motivo pelo qual eu mais tarde iria gostar do David Lynch.

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Não irei elaborar sobre nada disso.

Ao invés disso, apenas peço que retorne nos próximos dias para descobrir como ficaram os novos jogos de Mario e Sonic, num embate direto. Quem será o vitorioso? Spoilers: os investidores criminalmente bem-pagos da Nintendo e da Sega, que são capazes de viver explorando a mão de obra alheia. Não perca! Mario e Sonic, igual nos anos 90. Compre produtos para expressar sua identidade! Jogue videogames!

PS: Essa semana acontecerá a Feira Literária de Varginha, na Biblioteca Municipal. Serei expositor, nas manhãs de quarta e quinta, e estarei presente com meu novo livro de poemas, “Do jeito que você salva navios em garrafas”. Tanto Mario quanto Sonic dão as caras nesses versos, assim como um monte de artefatos da cultura pop millenial. Eis a capa:

Apareçam os interessados, para batermos um papo. Comprem meu livro. Joguem videogames.

Conheça o autor da nossa coluna “Impressões digitais”

Kelvin Matheus Rosa é graduado em Letras pela UFSJ e mestre em Letras pela mesma instituição, na linha de Pesquisa Literatura e Memória Cultural. Lançou em 2020 o livro Libélula 44 em formato fanzine, no Museu Municipal de Varginha. Performou poesia em São João del-Rei e Tiradentes em 2019, no Inverno Cultural da UFSJ e Festival Artes Vertentes. Nasceu em 1996, ano de lançamento do Nintendo 64 e do caso do ET. Divide aniversário com Oscar Wilde.

***As opiniões e conceitos emitidos nos textos assinados por nossos colunistas; bem como, a exatidão e procedência das citações e informações expostas são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores. Portanto, não refletem necessariamente a posição e/ou opinião da Argumento Jornalismo, proprietária do Blog do Madeira e Folha de Varginha; e de seu Conselho de Leitores.

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