Domingo ela não vai

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Interpretando a música popular brasileira

Sabe o que me irrita, Olegário? O “significado oficial” de uma música. Primeiro porque se qualquer arte tiver um significado único não devia ser arte, mas um compêndio, né? Segundo porque é uma prosinha chata pra caramba mesmo. E terceiro porque, na maioria das vezes, nem mesmo o autor sabe muito bem o que está acontecendo ali.

Você já deve ter ouvido a lenda do Oswaldo Montenegro em que ele foi fazer vestibular e errou uma questão sobre a própria música. Já ouvi esta mesma história se referindo a outros compositores também. Não importa se é real, a questão é que a arte é abstrata mesmo quando concreta, meu amigo.

Veja o Herbert Vianna: certa vez disse que a música “Óculos” é uma homenagem aos surfistas. Sério. “E volta e meia eu entro com meu carro pela contramão. Eu tô sem óculos!” Pensa bem. Eu jurava que ele estava falando de óculos.

E, pior, a música “Metal contra a nuvens” fala sobre o Collor. Isso mesmo: o ex-presidente do impeachment. “Não me deixem só!” Foi preso dia desses. O Renato Russo disse numa entrevista que a música fala sobre ele. Agora, imagina: onze minutos e meio de uma boa tentativa de um rock progressivo em língua portuguesa jogados fora assim. Onze minutos e meio! Errado foi quem fez a pergunta. O melhor era nem querer saber. Só ouve, pôxa!

Mas as pessoas querem saber, Olegário. Por isso que eu te chamei aqui. Você, Olegário Sá Belotodo, o maior intérprete da música popular brasileira, para iniciar esta nova série “Cotidiano”. Seja bem-vindo!

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Bom dia. Erh… hm-hm… Será que acharam que eu ia cantar? Não, não. É que às vezes as pessoas acham que interpretar uma música é só cantar fazendo caras e bocas. Isso deve ter outro nome. Veja o que o Google diz sobre interpretar:

1. determinar o significado preciso de (texto, lei etc.).
2. adivinhar a significação de (algo) por indução.

Bem, eu vou fazer qualquer uma dessas duas definições aí. Começando por um clássico – um fenômeno cultural – dos anos 90:

Pau Que Nasce Torto / Melô do Tchan

Como vemos, o primeiro verso da música traz uma reflexão sobre a corrente filosófica do determinismo que é a ideia de que todos os eventos são causados por fatores anteriores, excluindo a possibilidade de livre-arbítrio.

Pau que nasce torto nunca se endireita
Menina que requebra a mãe pega na cabeça
Pau que nasce torto nunca se endireita
Menina que requebra a mãe pega na cabeça

Em contraponto ao determinismo, no segundo verso vem a preocupação da mãe com o comportamento da filha. Demonstra sua fé em que há espaço, sim, para a liberdade de escolha. A mãe age com conselhos e ordens na esperança de endireitar a menina. A repetição, recurso muito utilizado nas composições musicais, nos leva a ter tempo de refletir sobre o tema.

Domingo ela não vai (vai, vai)
Domingo ela não vai não (vai, vai, vai)
Olha, domingo ela não vai (vai, vai)
Domingo ela não vai não (vai, vai, vai)

Acima, a música continua com ênfase neste conflito de gerações. Na sociedade da época, ainda que de forma tímida, pais e mães ainda representavam certa autoridade sobre a prole. Se hoje sequer é cogitada a possibilidade de um castigo, naquela situação ele ainda era imposto. Embora a menina tenha ido. Acredito que fugindo pela janela do quarto.

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A história continua e a partir deste momento o compositor reflete sobre a fragilidade do ser humano diante dos próprios instintos naturais e a dubiedade entre o que se deve e o que se quer fazer. Afinal, impera o determinismo? Haveria escolha?

Segure o tchan
Amarre o tchan
Segure o tchan tchan tchan tchan

A partir daí a música avança com eventual lubricidade, frases desconexas e um jogo de repetições. Mais um espaço, claro, para a reflexão, não só filosófica, mas sociológia e – por que não? – antropológica. Até, enfim, que chega ao seu desfecho:

Depois de nove meses você vê o resultado

A consequência de um ato inconsequente livre e espontâneo? Ou um simples roteiro predeterminado sendo cumprido? Como em toda boa arte, cabe ao público – o ouvinte, no caso – a conclusão.

Vale lembrar que, nos anos 90, a gravidez na adolescência era uma preocupação da sociedade. Hoje, diferente, uma senhora levanta as mãos para o céu e se dá por satisfeita quando é chamada de “avó” e o neto em questão não é um cachorro ou um bebê reborn.

The times they are a-changin, meu chapa.
Até a próxima semana.


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