É a primeira vez aqui no Blog que falarei disso: sou professor de escrita criativa. Tenho outro emprego: dou aulas particulares de inglês há alguns anos, e recentemente assumi um cargo escolar com crianças, mas ministro também uma oficina literária com dois amigos de longa data que sempre tiveram uma paixão parecida por mundos imaginários e histórias inteligentes e bem contadas. Uma coisa experimental. Acabamos descobrindo um ritmo: eles escrevem, nós lemos a produção, lemos teoria também, conversamos sobre, tentamos descrever o que funciona, o que não funciona, entramos em digressões, tentamos nos fazer rir.
Nas aulas, lemos teóricos que conheci em meu percurso: seja pesquisa própria, o que conheci na universidade, as indicações escolhidas a dedo por meus companheiros nerdões das palavras, e há alguns meses conversamos sobre “Como Funciona a Ficção”, de James Wood.

Conheci o livro nas caixas de mudança de uma pessoa com a qual nutri amizade e me afastei, sob circunstâncias que não acontecem com todo mundo e das quais não irei falar aqui.
É um livro originalmente publicado pela Cosac-Naify, editora cujo papel no ecossistema literário brasileiro seria melhor expressa por um tweet que vi num print do Instagram, cuja autoria original desconheço: “A Cosac-Naify é o Bitcoin de humanas”. Isso porque foi fundada por ricaços excêntricos que publicavam livros de alta qualidade em edições chiques sem expectativa realista de retorno. Daí a editora encerrou suas atividades e liquidou os estoques. Agora, seus livros são consideravelmente raros, e algumas edições alcançam preços escandalosos na Estante Virtual, sendo boa peça pra especulação (se é que é possível lucrar com especulação literária).
Então imagine minha felicidade ao saber que a editora do SESI de SP recebeu uma parte do acervo da Cosac-Naify como uma doação, e consequentemente este livro foi republicado num valor acessível. O texto me instigou quando primeiro li, e eu não tinha acesso mais, pois a editora batera as botas. A primeira edição da Cosac, apesar de produzido em massa, gerava esse fascínio materialista quase aurático em termos benjaminianos que os livros raros geralmente geram. Agora, o livro é encontrado na internet por valores que não pagam uma noitada de chopp no fim de semana dos mais frustrantes.
Sendo sincero, da primeira vez que li, no meio de minha graduação, faltou maturidade para realmente compreender os insights do autor. Ainda sou muito novo nessa área das artes. Enquanto algumas influencers ou cantoras são consideradas fora de moda por não terem mais 23 anos, na literatura Umberto Eco teve a pachorra de se colocar como jovem escritor aos 40 (claro que sob ironia, mas isso estraga o efeito dramático). Apesar de um literary baby ainda, já estou há dez anos em minha caminhada como escritor. Após um mestrado em teoria literária, quando estudava materiais para planejar minhas aulas de escrita criativa, sinto que consegui compreender melhor o livro, e ainda me perco com algumas passagens. Elas também funcionam em aula, e é impactante a experiência de conseguir compartilhar literatura, uma coisa que tanto parece solitária pra tanta gente que conheço da área. E vamos lá, os estereótipos de cultura pop não ajudam: gente que lê é gente calada, prefere a companhia dos livros que das pessoas. Bem, a contradição do clichê é que a literatura é uma conversa. É escrita por pessoas, sejam pessoas que viveram experiências excepcionais, ou que passaram a maior parte de seu tempo em vidinhas de calmaria privilegiada. O elo comum de todo bom escritor é ler outros escritores. Continuar o diálogo milenar.
Wood não é obscurantista, e sua prosa é direta e toda trabalhada naquela estilística de clareza e concisão que os autores de língua inglesa muito gostam. Ainda assim, pelo título você imaginaria um texto mais didático. O autor respeita sua inteligência, a conversa é num tom que assume que você tem o mesmo histórico literário que ele. Isso seria de se esperar: as ideias são melhor compreendidas se você conhece os livros, autores e exemplos trazidos. Como os trechos são curtos e organizados, e as reflexões são profundas o bastante para recompensar releituras, acaba sendo um ótimo livro para retornar em diferentes estágios da vida, com outras perspectivas e outros livros na cabeça e no coração.
Quando escrever já é uma prática e você frita em questões literárias no seu cotidiano, a releitura dessas meditações curtas e impactantes de um leitor experiente, claramente apaixonado no que faz, arrisca lampejos de inspiração.
Concordo com muitos pontos que Wood traz sobre boa prosa. Por vezes acho Wood um chatão. Algumas passagens selecionadas entre os muitos exemplos do autor não me impressionam, enquanto outras dão vontade de ler as fontes. Também discordamos de gosto em certas questões. Ele claramente não gostou da prosa de David Foster Wallace (meu objeto de estudo do Mestrado) sua leitura dele confunde um pouco a floresta com as árvores. O que em Wallace é uma voz polifônica, num gesto de empatia democrática, para Wood é uma marca da degeneração do discurso público. Também acho que Wood não se interessa tanto por mundos imaginários, e sim com o realismo. Nada tem ar mítico. Parece que ele quer ser convencido, mas nunca está disposto a acreditar.
Primeiro conheci o conceito de flanêur foi por Wood. Também entendi melhor a importância histórica de Flaubert para o estabelecimento de algumas convenções do realismo neste livro. Refleti sobre alguns modos de narrar menos elegantes e possibilidades de vivificar mais minha escrita graças às suas reflexões. Encerro numa contribuição inestimável para minhas aulas: o modo que a literatura nos enxerga a notar as coisas.
Wood tem essa tese que a literatura nos ensina a prestar atenção: absorvemos a forma que a boa escrita nota e denota a vida. O que absorvemos dos livros acaba mudando a forma que nós observamos o detalhe em nossa própria vida. A coisa se retroalimenta. O mundo fica cada vez mais parecido com a literatura porque aprendemos a enxerga-lo pela literatura, como a mediadora e canalizadora da nossa experiência. Isso seria a grande sacada do realismo. E a paixão de Wood pelo assunto me convenceu.
Até para discordar de Wood, acabo fazendo-o nos termos que ele coloca. O texto é sempre construtivo e interessante, se você dá a atenção devida.
Aprendi com Wood que Tolstoi comete autoplágio em Anna Karienina, descrevendo dois bebês diferentes como tendo bracinhos gordinhos que parecem amarrados com linha. Minha sobrinha de fato tem bracinhos gordinhos que parecem amarrados com linha, no alto de seu glorioso primeiro semestre na terra, chorando, fazendo cocô nas próprias calças, e enfiando o boneco do Super Mario que já foi meu na boca. Minha irmã, sem nenhuma formação literária, num acesso de fofura impulsiva materna, já lhe apelidou de “Bonequinho da Michelin”, pois seus bracinhos gordinhos parecem amarrados com linha.
Recomendo James Wood para quem tem interesse de se inserir de cabeça nas técnicas da literatura. Há muitos livros sobre o assunto, e quando encontro um que funciona comigo, valorizo-o como um mago valorizaria seu grimório. Caso você se frustre com a experiência da leitura sozinha, recomendo minhas aulas.
Conheça o autor da nossa coluna “Impressões digitais”
Kelvin Matheus Rosa é graduado em Letras pela UFSJ e mestre em Letras pela mesma instituição, na linha de Pesquisa Literatura e Memória Cultural. Lançou em 2020 o livro Libélula 44 em formato fanzine, no Museu Municipal de Varginha. Performou poesia em São João del-Rei e Tiradentes em 2019, no Inverno Cultural da UFSJ e Festival Artes Vertentes. Nasceu em 1996, ano de lançamento do Nintendo 64 e do caso do ET. Divide aniversário com Oscar Wilde.
***As opiniões e conceitos emitidos nos textos assinados por nossos colunistas; bem como, a exatidão e procedência das citações e informações expostas são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores. Portanto, não refletem necessariamente a posição e/ou opinião da Argumento Jornalismo, proprietária do Blog do Madeira e Folha de Varginha; e de seu Conselho de Leitores.




























