Era uma cebolinha tão grande, mas tão grande que não podia ser de um cheirinho verde. Tava mais pra uma cafungada amazônica, sem sombra de dúvida. Pra se ter uma ideia, dava pra fazer um canelone dentro dela. E isso nem parece assim uma má ideia, mas deixa a cebolinha pro final.
Começa com uma panela vazia. Como uma página em branco. Faz um fio de óleo igual quem rabisca com a caneta, só pra ver se funciona. E então coloca o alho. Inteiro, em pedaços, fatiado, ralado, não importa. Primeiro o alho. E assiste a ele dourando, sem se distrair senão queima tudo. E então carrega de cebola, tomate, pimentão e faz aquela coisa bonita ali.
A partir daí qualquer coisa serve. Tem o que na geladeira hoje? Mistura lá e deixa acontecer. Dá uma mexida e uma largada de sal generosa. No limite da pressão arterial não perceber o desvario.
Depois é só ir dando uma água de vez em quando – sem exagero – pra coisa não desandar. Fogo baixo e então chega o momento em que você se lembra. E como é que podia ter esquecido daquele serviço?
Confere dia da semana, mês, relógio da parede. Escolhe um palavrão médio. Firme, mas de poder ofensivo moderado. Completa com um “inacreditável” e bufa. Se tiver uma tendência mais teatral, vale as mãos no cabelo, um soquinho na parede.
Respira mais um pouco. Fundo, mas mais rápido desta vez. Bota mais uma aguinha na panela, pega o celular, pensa uma justificativa. Começa a digitar. Apaga tudo. Bota o celular na mesa outra vez. Anda até o quarto e volta, uma, duas, três vezes. Varia o palavrão. Agora mais genérico. Mais inútil que notícia de porcentagem de chance de título a cada rodada.
Senta um pouco e balança a cabeça em negativo.
Volta na pia. Pega a cebolinha gigante. Corta, corta, corta. Vai, espalha por cima e desliga o fogo. Está pronta a crônica.
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Secretária da Argumento Jornalismo Ltda (BlogdoMadeira e Jornal Folha de Varginha). Estudante de Publicidade & Propaganda.




























