Uma noite no Capitólio: espetáculo de alunos do Conservatório adapta Ionesco

Uma noite no Capitólio: espetáculo de alunos do Conservatório adapta Ionesco
Edição: Eduardo Bregalda Jr. / Blog do Madeira

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Foi a primeira vez em bastante tempo que frequentei o Theatro Capitólio, e me peguei escrevendo em meu diário sob as luzes baixas da apresentação por começar. O que me levou ao teatro foram os espetáculos dos alunos de Teatro do Conservatório Marciliano Braga. Fui prestigiar uma amiga querida: a tatuadora, ilustradora e piercer Fabi Finoti, atuando numa adaptação das peças de Eugene Ionesco, no espetáculo “Que absurdo”, organizado pela professora Marina. Três pares de atores sentaram-se em cadeiras no palco. Cada cena aconteceu com um par, enquanto os outros seguravam posição, esperando.

 

Falar de Ionesco me faz parecer mais culto que realmente sou. Não sou de ler dramaturgos, mas fui presenteado por meu querido Vinicius Mahier – de cujo livro “Eu confundi um vagalume com um acidente de avião” já falei aqui – com dois livros que guardo como um par de brincos de pérola: “O Rinoceronte”, de Ionesco, e “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. Gosto do senso de humor desses dramaturgos do absurdo. Gosto de como eles fazem as situações se esticarem sem darem em nada. Gosto de como ainda assim, essas situações súbitas expressam muita humanidade.

Outras duas peças foram apresentadas: uma adaptação de Dom Quixote (Legal, mas meio carregada de gravitas e pouco bem-humorada. O humor de Quixote é a melhor parte do romance!) e uma peça original inspirada em Beckett (uma surpresa!) encerrou a noite. Sempre que penso em Dom Quixote, Beckett, ou Ionesco, eu penso no Vinícius. Tenha certeza disso: pensei no Vinícius essa noite. Também houveram alunos de canto numa audição, no espetáculo Vidas Líquidas, com música popular brasileira orbitando a temática da água.

 

Pensei: “eu devia ir mais ao teatro”. Mais de quatro meses ensaiando e preparando o espetáculo, tudo culmina num momento só. A Fabi arrasou, fazendo o papel de velhinho, numa cena em que um casal de idosos conversa despropósitos, sendo interrompidos pela campainha. Outra surpresa foi a presença de Rayra, que conheço de outros rolês, usando preto, com um chapéu sobre os olhos, bengala em mãos, declarando monólogos tirados de “O Rinoceronte”. Enquanto a Rayra fez um personagem mais dramático com mais gracejos na entrega das palavras, a Fabi fez um ótimo velhinho ranheta sem paciência.

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Um menino da plateia por duas vezes roubou a cena. Primeiro, ele começou a dançar fervorosamente no meio do recital de canto, tirando a atenção de duas loiras muito arrumadas que cantavam “Água de Beber”. Eu adorei, não só pois o menino era cativante em sua dancinha maluca, mas por roubar a solenidade de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Na última peça, pessoas se retiraram do teatro e os atores do espetáculo anterior tomaram lugares na plateia. Um silêncio desconfortante pairou, enquanto uma mulher descalça conversava sobre poesia e era sumariamente ignorada por três contracenistas apáticos, tentando se concentrar em suas leituras. Quase como se fosse parte da coisa, o menino perguntou para uma mulher, que podia ser sua mãe, ou tia, quanto tempo ainda ficariam ali. Impaciente pra ir embora, imagino, pra um ambiente menos solene, onde poderia brincar mais confortável. Um celular também disparou o som de uma notificação. A apatia do entorno reforçou a atmosfera do texto, enquanto a personagem falava contra o silêncio apático. Beckett teria achado graça (Não falo por ironia, foi engraçado mesmo).

Após as palmas e o laurel, encerramos no teatro e demos um rolê pela noite de Varginha. Saí com a Fabi e a Rayra, que trouxe a bengala de sua cena. Levamos a bengala no rolê.

Recomendo fortemente a leitura das peças de Ionesco, em especial “O Rinoceronte” e “A Lição”. O dramaturgo é cheio de um tipo de humor de repetição e desespero que minha cabeça derretida por internet já foi condicionado a adorar, e há uma coisa muito lírica sobre a atmosfera desolada das peças dele. A coisa vai de um desespero existencial pra humor engraçadinho sem os clichês óbvios de ambas polaridades emocionais se atropelarem. A Fabi me relatou a dificuldade de segurar risada lá no palco ao ouvir as ótimas trocas do diálogo de cenas vizinhas. Ou pior que o silêncio: após a finalização da primeira cena, onde um casal se apaixona após uma série de coincidências muito improváveis, ambos atores seguraram os personagens em absoluto silêncio, cortejando-se, com sorrisos esticados no rosto, enquanto exageravam as mesuras corporais de casal apaixonado, e tornaram-se objetos de cena. No meio da cena da Fabi, fazendo o papel de vovô ranheta, reparei no casal, sentado ao fundo, ainda segurando os personagens, absoluto silêncio, sorrindo. E aquilo aconteceria durante o resto da cena. E no outro par de cadeiras, outro par de atores: a aluna caída, morta, ao chão, e o professor sentado, abaixado, segurando seu livro, olhando o resultado de sua aula. Todos seguravam posição enquanto eu ria dos diálogos da Fabi. Eles não podiam rir. Comparado ao silêncio da morte da aluna, os sorrisos e gestos dos enamorados eram muito mais exaustivos, e aquilo ia e ia até a troca de cena. Ia e ia e ia igual a gente vive um dia depois do outro.

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Conheça o autor da nossa coluna “Impressões digitais”

Kelvin Matheus Rosa é graduado em Letras pela UFSJ e mestre em Letras pela mesma instituição, na linha de Pesquisa Literatura e Memória Cultural. Lançou em 2020 o livro Libélula 44 em formato fanzine, no Museu Municipal de Varginha. Performou poesia em São João del-Rei e Tiradentes em 2019, no Inverno Cultural da UFSJ e Festival Artes Vertentes. Nasceu em 1996, ano de lançamento do Nintendo 64 e do caso do ET. Divide aniversário com Oscar Wilde.

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