Aos dez anos de idade, os domingos tinham uma rotina deliciosa.
Meu pai acordava cedo e ia buscar pastel no mercado.
Minha mãe levantava e passava café.
O cheiro que inundava a casa era a senha pra, do meu quarto, levantar.
Nem precisava chamar.
Daqui a pouco estavam os três comendo pastel de queijo do Mário.
Seu Affonso, português, colocava café na xícara grande até transbordar no pires.
Jogava mais um pouco de café no pires, deixava a xícara de lado.
E sorvia o café direto do pratinho, enquanto minha mãe o xingava pela sujeira que aprontava.
Em seguida o trio deitava para assistir Som Brasil, programa apresentado e criado pelo Rolando Boldrin.
A abertura era com a música “Vide Vida Marvada” (“…ai que saudade do cateretê…), de autoria do próprio Boldrin.
Moleque ainda, eu curtia o programa, com música ao vivo e ambientada em uma mercearia da roça.
O próprio nome já era uma coisa curiosa.
O visual do programa, também.
Boldrin recebia convidados, contava causos e, no final, uma piadinha com mensagem positiva.
Depois, eu ia na dona Maria Palmieri, na Presidente Antônio Carlos, buscar jornais e revistas.
Voltava pra casa, de chinelo, olhando as vagas que existiam para os carros no centro de Varginha, cantando baixinho:
“É que a vioooooooola fala alto no meu peito humaaaaano…”.
Detalhe: acabei de descobrir que cantei errado a vida inteira.
O correto é : “Há de encontrar-me num cateretê”.
Prefiro o jeito que eu cantava.
O resto do dia era só ler, jogar bola e comer o melhor frango com macarrão do mundo.
“…ai que saudade do cateretê…”
























