No sinal

Um pretérito mais que perfeito…

publicidade

O Desajeito tinha um serviço para entregar e ainda por cima estava atrasadíssimo para aula. Enquanto isso, o Apressadinho, que não tinha nada para fazer, não via a hora de chegar em casa. Era por volta daquele horário estranho que fica entre a novela das seis e a das sete. Há mais ou menos um ano e meio, para ser mais exato. Cada um vindo de um lugar diferente da cidade.

Não se conheciam. Sequer sabia um da existência do outro. Se passassem pelo mesmo passeio, provavelmente desviariam sem se perceberem. Mas, naquele dia, foi exatamente no mesmo instante que o primeiro apertou o botão do elevador que o segundo ligou o seu carro, embora não haja provas concretas desse fato.

Dois mundos diferentes estavam prestes a se encontrar. O Desajeito sempre pensava demais, dizem até que ainda fala, sozinho, andando na
rua. Às vezes até ri. Já o Apressadinho sabe muito bem como se comportar na multidão e nunca tinha imaginado – pelo menos foi isso que
disse à polícia – fazer mal a uma formiga.

O Desajeito andava rápido, a pé, fazendo ultrapassagens no passeio. O Apressadinho mais rápido ainda, de carro, driblando o trânsito lento da avenida. O Desajeito, leste-oeste. O Apressadinho, norte-sul. E, ali na frente, o sinal. Fechado. Quase abrindo. O Desajeito pensou que dava tempo de atravessar enquanto o Apressadinho ficou feliz de saber que o sinal abriria assim que ele chegasse. Não se viram. Sincronismo perfeito. Um grande encontro. Quase inesquecível, embora o Desajeito não lembrasse sequer a cor do carro quando acordou no pronto-socorro. O mundo é assim mesmo: cheio de surpresas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade