Matéria publicada originalmente em 10 de julho de 2025
Poços de Caldas é uma bela cidade. Sua beleza e pontos turísticos atraem moradores da região e de outros estados. Mas existem alguns causos que tornam a visita mais interessante.
Recentemente passei alguns dias em Poços com minha família, por ocasião do Festival Literário Internacional de Poços (Flipoços) e do concurso Comida di Buteco. Nos hospedamos no antigo Cassino Palace Hotel. Que já não mantém o brilho dos anos em que os jogos de azar eram permitidos no Brasil. Mas continua sendo um dos locais que mais preservam o glamour daquela época.
Escolhi o hotel por dois motivos: era a sede da Flipoços (o carro ficou estacionado o tempo todo).
E a curiosidade pela história do imóvel, frequentado na década de 1930 por estrelas como Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Carmem Miranda e Sílvio Caldas. Por políticos como JK e Ademar de Barros.
Mas quem mais aparecia por ali, com uma frequência incomum, era o então presidente Getúlio Vargas.
Logo na entrada, as marcas nos balcões do hall de entrada e as irregularidades no piso denunciam a idade do prédio. O atendimento, um tanto cerimonioso, reforça a sensação de estar em outra época — quando as pessoas eram mais educadas e pareciam viver com menos pressa.

Chegamos ao nosso quarto. O telefone é de discar, do modelo original da inauguração. E funciona!
O banho é excelente, água com muita pressão e quente na medida. Mas a pele fica um pouco oleosa, devido à água sulfurosa.
As dependências do hotel são charmosas e amplas. Os salões são ornados com colunas clássicas, vitrais, tudo restaurado. Os quartos mantêm o ar vintage, com a modernidade de cartões para abrir alguns apartamentos, TV e ar-condicionado. O frigobar fica em sala separada, com armário embutido, mesas e cadeiras para facilitar a arrumação das roupas.
Construção
A iniciativa de construir o hotel foi do governo de Minas, ainda na década de 1920. O governador Antônio Carlos Ribeiro de Andrada planejou transformar Poços de Caldas em uma das mais luxuosas estâncias termais da América, com um grande complexo turístico composto por hotel, cassino e termas.
O arquiteto carioca Eduardo Vasconcelos Pederneiras executou o projeto.
A obra foi iniciada pela iniciativa privada e concluída pelo governo. A inauguração foi em 1930.
Romance proibido
É aí que começa a parte mais interessante da história.
Enquanto governava o Brasil — primeiro no Governo Provisório, depois no Estado Novo — Getúlio Vargas manteve um romance extraconjugal em Poços de Caldas.
O casal Vargas já frequentava a cidade sul-mineira antes do affair. A primeira-dama Darcy Vargas foi se tratar na nas águas termais de Poços de Caldas após um problema de saúde.
Darcy e Getúlio ficavam na suíte 522, no terceiro andar do hotel. O apartamento é idêntico aos aposentos de Getúlio no Palácio do Catete, residência oficial do presidente da República, no Rio de Janeiro. Ao lado, uma réplica do gabinete presidencial (foto acima). E uma porta falsa — sabe-se lá como foi usada.
Quando não queria que estava fora do Rio de Janeiro, tirava fotos em seu “gabinete” no Sul de Minas e enviava para a imprensa.
Mas o affair proibido de Getúlio aconteceu alguns anos depois, entre 1937 e 1938. A primeira-dama descobriu a relação e chegou a dormir separada do marido.
A “Bem-Amada”

E quem era a amante do presidente?
Era Aimée Sotto Mayor Sá, casada com o chefe de Gabinete de Vargas, Luís Simões Lopes. Além de bonita, uma mulher fina e elegante.
O caso presidencial começou por volta de 1937. Vargas mencionava em seus diários um “encontro longamente desejado” no dia 29 de abril de 1937, descrevendo-se como “banhado por um raio de sol”.

Aimée era citada no diário do homem mais poderoso do país como “A Bem Amada”.
Das várias reportagens que li e depoimentos que tomei em Poços, não resta dúvida: o casal chegou a se ‘amar’ nos parques de Poços, devidamente fechados pela Guarda Pessoal da Presidência da República.
Imagine então o que acontecia na suíte 522.
Aimée espiã
Quando o caso com Vargas foi descoberto, Aimée se separou do marido e mudou-se para o exterior.
Em 1939, Getúlio Vargas teria enviado Aimée a Paris com uma missão extraoficial: observar o clima político europeu e tentar medir o avanço do nazismo. A intenção era fornecer a Vargas informações para decidir de que lado o Brasil se alinharia na guerra — se com o Eixo ou os Aliados. O UOL conta, em uma reportagem deliciosa, como seria o dia a dia da nossa espiã.
Era uma socialite que participava e promovia as maiores festas da época.
Em 1942, a revista Time a elegeu como uma das dez mulheres mais bem-vestidas do mundo, ficando atrás somente da Duquesa de Windsor.
Graças à sua inteligência e elegância, Aimée tinha acesso a círculos fechados da elite política europeia, incluindo o embaixador americano em Paris, a família Kennedy e até a corte britânica.
Usava essa posição para observar, ouvir e relatar, como uma verdadeira “informante voluntária”.
Não há provas documentais públicas de que Aimée escrevesse relatórios formais, mas há registros em diários e biografias indicando que ela mantinha correspondência com o Palácio do Catete, e que suas opiniões influenciaram Vargas a se aproximar dos Aliados.
A última dama

Aimée de Heeren (sobrenome do segundo marido) faleceu aos 103 anos, em setembro de 2006. Obituário publicado pelo The New York Times destacava-a como uma das últimas “grand ladies” — expressão que remete a mulheres de elegância, influência e representatividade cultural.
O texto elogiava sua elegância, as conexões com figuras influente como Getúlio Vargas e o círculo dos Kennedys (namorou Joe Kennedy Jr., irmão de JFK). Viveu em palácios no Brasil, na Europa e nos EUA.
Na década de 1950, no Brasil, namorou ainda Assis Chateaubriand, dono da maior rede de comunicação da América Latina.
Com sua discrição Aimée impediu que o romance com Getúlio Vargas fosse descoberto. Até a recente divulgação dos diários do ex-presidente.
Sua morte passou desapercebida no Brasil.
A suíte 522

Deu vontade de visitar Poços e sentir um pouco do ambiente vivido por esse casal improvável? O hotel mantém essa aura de glamour, o café da manhã é muito bom, os móveis são antigos mas robustos.
A localização é ótima: dá pra passear com a família pelas praças, perto do teleférico, de uma série de lanchonetes-gourmet dispostos um ao lado do outro e de alguns restaurantes.
Em tempo: pedi, por três vezes, para conhecer a suíte 522, quando estivesse desocupada, lógico. Em vão. Cada hora era uma desculpa. Vou ter que voltar.
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Jornalista profissional (formado em Comunicação Social e Direito), radialista e cerimonialista. Escreve sobre política desde 1993. Diretor do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Servidor municipal. Comendador do Mérito Legislativo de Minas Gerais. Ex-membro da Academia Varginhense de Letras. Diretor da Abraço. Comentarista político da Rádio Clube de Varginha (99,3 FM). Organizador do livro “Narrativas de Nico Vidal”. Autor do livro “Causos da Política (acontecidos em Varginha)”. Apresenta o Blog ao Vivo (segunda a sexta, 9h). Cozinha pra família nos finais de semana (às vezes fica bom). Cruzeirense.





































Uma resposta
se fosse em tres pontas tava ferrado